SEIS CENTÍMETROS: UMA ANALÍSE ANTROPOMÉTRICA DA POF 2002- 2003
Luiz Paulo Nogueról, Cláudio D. Shikida, Leonardo M. Monasterio
Journal Article: 02/2005;
Abstract
This paper analyzes the heights of the Brazilian people using anthropometric and economic data from the Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003. The literature suggests that height is a good proxy of the physical life conditions of the populations. The tabulations of POF microdata indicate that the difference among the heights of 21 and 65-year-old men is circa 6 centimeters. The same value, by chance, represents the difference on the stature of the poorest and richest quintiles. There are also steady regional differences; in the North and Northeast, the heights are about 2 centimeters lower than the national average, for any cohort. Regression analyses show that proxy variables related to life conditions during body growth and regional dummies were statistically significant causes of the variation on the height of individuals. In contrast, color, urban/rural and inequality variables were not significant. The results replicate what the historiography on life conditions and stature says: the social environment has a significant impact on the average height of the populations.
Source: RePEc
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Seis centímetros: uma analíse antropométrica da POF 2002-2003
Luiz Paulo Nogueról
UFRGS
Cláudio D. Shikida
FIEMG – IBMEC
Leonardo M. Monasterio
UFPel
Resumo
O trabalho analisa as alturas dos brasileiros a partir dos dados antropométricos e econômicos da Pesquisa
de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003. Com base na literatura sobre o tema, argumenta-se que a
altura é uma boa proxy das condições físicas de vida das populações. As tabulações dos resultados da
POF indicam que a diferença aproximada de altura entre os homens de 21 e os de 65 anos é de cerca de 6
centímetros. O mesmo valor, por coincidência, separa a estatura dos adultos dos quintis mais ricos e a dos
mais pobres. Existem, também, persistentes diferenças regionais; no Nordeste e Norte, por exemplo, as
alturas tendem a ser por volta de 2 centímetros inferiores à média nacional, para qualquer faixa etária. A
análise de regressão mostra que proxies relacionadas com as condições de vida na até a adolescência e
variáveis regionais influenciaram a altura dos indivíduos da amostra. Já as variáveis relacionadas à cor,
residência rural/urbana e desigualdade foram não significativas. Os resultados obtidos se coadunam com
o que a historiografia a respeito da relação entre altura e condições de vida afirma: a altura média das
populações é influenciada pelos ambientes sociais em que se encontram.
Palavras-chave: antropometria, indicadores de condições de vida, altura.
Abstract
This paper analyzes the heights of the Brazilian people using anthropometric and economic data from the
Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003. The literature suggests that height is a good proxy
of the physical life conditions of the populations. The tabulations of POF microdata indicate that the
difference among the heights of 21 and 65-year-old men is circa 6 centimeters. The same value, by
chance, represents the difference on the stature of the poorest and richest quintiles. There are also steady
regional differences; in the North and Northeast, the heights are about 2 centimeters lower than the
national average, for any cohort. Regression analyses show that proxy variables related to life conditions
during body growth and regional dummies were statistically significant causes of the variation on the
height of individuals. In contrast, color, urban/rural and inequality variables were not significant. The
results replicate what the historiography on life conditions and stature says: the social environment has a
significant impact on the average height of the populations.
Keywords: anthropometrics, life conditions indicator, height.
INTRODUÇÃO
A recente divulgação dos dados antropométricos dos brasileiros gerou uma polêmica
pouco usual. Alguns destacaram que a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003 (IBGE, 2005;
POF, doravante) mostrava que a obesidade era um problema mais grave do que a desnutrição. De
fato, os dados sugerem que, mesmo para as populações dos estratos de renda mais baixos, a
presença de excesso de peso ou de obesidade é bem mais freqüente do que a de déficit. Outros
supuseram que as diferenças de nutrição entre as classes desapareceram no Brasil. Houve ainda
aqueles que, mais envolvidos nas campanhas de combate à fome, chegaram a desconfiar da validade
dos resultados obtidos pelo IBGE. Este trabalho argumenta que a ênfase na insuficiência (ou
excesso) de peso é apenas uma das possíveis interpretações dos dados da POF. Ao voltarmos o foco
VIII Encontro de Economia da Região Sul - ANPEC SUL 2005
Área 1 - Trabalho, Pobreza, Desenvolvimento Regional e Economia das Relações Sociais
Luiz Paulo Nogueról
UFRGS
Cláudio D. Shikida
FIEMG – IBMEC
Leonardo M. Monasterio
UFPel
Resumo
O trabalho analisa as alturas dos brasileiros a partir dos dados antropométricos e econômicos da Pesquisa
de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003. Com base na literatura sobre o tema, argumenta-se que a
altura é uma boa proxy das condições físicas de vida das populações. As tabulações dos resultados da
POF indicam que a diferença aproximada de altura entre os homens de 21 e os de 65 anos é de cerca de 6
centímetros. O mesmo valor, por coincidência, separa a estatura dos adultos dos quintis mais ricos e a dos
mais pobres. Existem, também, persistentes diferenças regionais; no Nordeste e Norte, por exemplo, as
alturas tendem a ser por volta de 2 centímetros inferiores à média nacional, para qualquer faixa etária. A
análise de regressão mostra que proxies relacionadas com as condições de vida na até a adolescência e
variáveis regionais influenciaram a altura dos indivíduos da amostra. Já as variáveis relacionadas à cor,
residência rural/urbana e desigualdade foram não significativas. Os resultados obtidos se coadunam com
o que a historiografia a respeito da relação entre altura e condições de vida afirma: a altura média das
populações é influenciada pelos ambientes sociais em que se encontram.
Palavras-chave: antropometria, indicadores de condições de vida, altura.
Abstract
This paper analyzes the heights of the Brazilian people using anthropometric and economic data from the
Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003. The literature suggests that height is a good proxy
of the physical life conditions of the populations. The tabulations of POF microdata indicate that the
difference among the heights of 21 and 65-year-old men is circa 6 centimeters. The same value, by
chance, represents the difference on the stature of the poorest and richest quintiles. There are also steady
regional differences; in the North and Northeast, the heights are about 2 centimeters lower than the
national average, for any cohort. Regression analyses show that proxy variables related to life conditions
during body growth and regional dummies were statistically significant causes of the variation on the
height of individuals. In contrast, color, urban/rural and inequality variables were not significant. The
results replicate what the historiography on life conditions and stature says: the social environment has a
significant impact on the average height of the populations.
Keywords: anthropometrics, life conditions indicator, height.
INTRODUÇÃO
A recente divulgação dos dados antropométricos dos brasileiros gerou uma polêmica
pouco usual. Alguns destacaram que a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003 (IBGE, 2005;
POF, doravante) mostrava que a obesidade era um problema mais grave do que a desnutrição. De
fato, os dados sugerem que, mesmo para as populações dos estratos de renda mais baixos, a
presença de excesso de peso ou de obesidade é bem mais freqüente do que a de déficit. Outros
supuseram que as diferenças de nutrição entre as classes desapareceram no Brasil. Houve ainda
aqueles que, mais envolvidos nas campanhas de combate à fome, chegaram a desconfiar da validade
dos resultados obtidos pelo IBGE. Este trabalho argumenta que a ênfase na insuficiência (ou
excesso) de peso é apenas uma das possíveis interpretações dos dados da POF. Ao voltarmos o foco
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para a altura dos brasileiros, verificamos que, apesar dos avanços sociais do século XX, há um
longo caminho a trilhar para que o país alcance padrões de eqüidade mais aceitáveis.
Quando o objetivo é avaliar a qualidade nutricional e as condições de vida de populações,
em sentido mais amplo e no longo prazo, a estatura média dos indivíduos é excelente indicador
sintético. Ela reflete não apenas os rendimentos médios da sociedade, mas o acesso das pessoas à
alimentação combinado com o dispêndio corporal de energia, como o trabalho e outras atividades
físicas, e mesmo a influência das doenças, em especial na infância.
Seis centímetros. Este trabalho mostra que essa é a diferença aproximada de altura entre
os brasileiros de 21 e os de 65 anos e, por coincidência, o que separa a estatura dos adultos dos
quintis mais ricos e a dos mais pobres. Ao contrário do que diz o senso comum, a literatura mostra
que diferenças genéticas, apesar de terem impacto individual, são desprezíveis em relação ao
conjunto dos indivíduos no que respeita à estatura. Em uma população, existem indivíduos mais
altos ou mais baixos, mas sua altura média é determinada por condicionantes externos. Ou seja, os
genes e o ambiente determinam a altura dos indivíduos, mas para as populações predominam as
influências das condições de vida. Dessa maneira, a altura durante a maturidade resume como foram
o atendimento nutricional e a saúde, mostrando efeitos que dificilmente poderiam ser identificados
nas estatísticas mais usuais de bem-estar, como renda monetária.
Foram historiadores econômicos, como Richard Steckel (1982, 1995) e John Komlos
(1989), que colaboraram para que se construísse este programa de pesquisa. Nativos e escravos
norte-americanos, aristocratas da Alemanha do século XVIII e militares de diversos países, entre
outros grupos humanos, tiveram suas alturas analisadas por esses acadêmicos e seus co-autores.
Eles mostraram, em períodos e locais diferentes, como se deu a variação das alturas dos indivíduos
e suas diferenças através da história e a relacionaram com as condições vigentes de vida. Outro
acadêmico de peso nas pesquisas antropométricas é Robert Fogel, laureado com o Prêmio Nobel de
Economia em 1993. Seus trabalhos revolucionaram o estudo da história da escravidão nos EUA,
fazendo uso, inclusive, de dados antropométricos para demonstrar que escravos do Sul dos EUA
tinham um padrão de conforto material por vezes superior ao de diversas populações livres (Fogel e
Engerman, 1974)1.
Como não estão disponíveis dados de longo prazo sobre a evolução das alturas dos
brasileiros, este trabalho usa os dados da POF para avaliar como se dá a evolução e a desigualdade
nessa dimensão. Uma vez que a altura reflete as condições de vida às quais as populações estiveram
expostas, e não as atuais, seria ideal se tivéssemos dados sobre os pais e famílias dos adultos
entrevistados pelo IBGE. Dado que essas informações não estão disponíveis, outras estratégias de
análise tiveram que ser empregadas. Utilizando apenas dados de corte transversal, variáveis proxy
serviram para estimar aspectos das condições de vida que influíram na estatura média da população
brasileira adulta. Para estimar estes efeitos, usaremos o instrumental de análise de regressão2.
Este trabalho contribui para uma nova interpretação dos dados obtidos pelo IBGE com a
POF: a altura dos brasileiros encontra-se abaixo do potencial porque as condições de vida existentes
estão longe de níveis satisfatórios. Mesmo admitindo a progressiva redução da subnutrição, a
existência de saneamento básico para a maioria das populações de nossos grandes centros, o
surgimento de discussões sobre a necessidade de uma reeducação alimentar (indicando que parte da
população não tem problemas de subnutrição, mas sim de qualidade em sua dieta alimentar), as
desigualdades quanto ao acesso aos serviços de saúde e de higiene em geral e à renda ainda são
muito grandes. Tudo isso se mostra nas diferenças de estatura entre os brasileiros, segundo regiões e
níveis de rendimentos, aqui identificadas. Com isso, reiteramos a importância dessa medida
antropométrica para avaliar os resultados das políticas sociais e econômicas e não apenas os seus
custos.
1 Obviamente, isso não é uma defesa da escravidão. Se os cativos tivessem níveis subjetivos maiores de bem-estar do que os livres, estes se
ofereceriam para trabalhar como escravos.
2 Vale lembrar, curiosamente, que a análise de regressão deve seu nome ao trabalho de Francis Galton justamente sobre as alturas das gerações (ver
Salsburg, 2001).
VIII Encontro de Economia da Região Sul - ANPEC SUL 2005
Área 1 - Trabalho, Pobreza, Desenvolvimento Regional e Economia das Relações Sociais
para a altura dos brasileiros, verificamos que, apesar dos avanços sociais do século XX, há um
longo caminho a trilhar para que o país alcance padrões de eqüidade mais aceitáveis.
Quando o objetivo é avaliar a qualidade nutricional e as condições de vida de populações,
em sentido mais amplo e no longo prazo, a estatura média dos indivíduos é excelente indicador
sintético. Ela reflete não apenas os rendimentos médios da sociedade, mas o acesso das pessoas à
alimentação combinado com o dispêndio corporal de energia, como o trabalho e outras atividades
físicas, e mesmo a influência das doenças, em especial na infância.
Seis centímetros. Este trabalho mostra que essa é a diferença aproximada de altura entre
os brasileiros de 21 e os de 65 anos e, por coincidência, o que separa a estatura dos adultos dos
quintis mais ricos e a dos mais pobres. Ao contrário do que diz o senso comum, a literatura mostra
que diferenças genéticas, apesar de terem impacto individual, são desprezíveis em relação ao
conjunto dos indivíduos no que respeita à estatura. Em uma população, existem indivíduos mais
altos ou mais baixos, mas sua altura média é determinada por condicionantes externos. Ou seja, os
genes e o ambiente determinam a altura dos indivíduos, mas para as populações predominam as
influências das condições de vida. Dessa maneira, a altura durante a maturidade resume como foram
o atendimento nutricional e a saúde, mostrando efeitos que dificilmente poderiam ser identificados
nas estatísticas mais usuais de bem-estar, como renda monetária.
Foram historiadores econômicos, como Richard Steckel (1982, 1995) e John Komlos
(1989), que colaboraram para que se construísse este programa de pesquisa. Nativos e escravos
norte-americanos, aristocratas da Alemanha do século XVIII e militares de diversos países, entre
outros grupos humanos, tiveram suas alturas analisadas por esses acadêmicos e seus co-autores.
Eles mostraram, em períodos e locais diferentes, como se deu a variação das alturas dos indivíduos
e suas diferenças através da história e a relacionaram com as condições vigentes de vida. Outro
acadêmico de peso nas pesquisas antropométricas é Robert Fogel, laureado com o Prêmio Nobel de
Economia em 1993. Seus trabalhos revolucionaram o estudo da história da escravidão nos EUA,
fazendo uso, inclusive, de dados antropométricos para demonstrar que escravos do Sul dos EUA
tinham um padrão de conforto material por vezes superior ao de diversas populações livres (Fogel e
Engerman, 1974)1.
Como não estão disponíveis dados de longo prazo sobre a evolução das alturas dos
brasileiros, este trabalho usa os dados da POF para avaliar como se dá a evolução e a desigualdade
nessa dimensão. Uma vez que a altura reflete as condições de vida às quais as populações estiveram
expostas, e não as atuais, seria ideal se tivéssemos dados sobre os pais e famílias dos adultos
entrevistados pelo IBGE. Dado que essas informações não estão disponíveis, outras estratégias de
análise tiveram que ser empregadas. Utilizando apenas dados de corte transversal, variáveis proxy
serviram para estimar aspectos das condições de vida que influíram na estatura média da população
brasileira adulta. Para estimar estes efeitos, usaremos o instrumental de análise de regressão2.
Este trabalho contribui para uma nova interpretação dos dados obtidos pelo IBGE com a
POF: a altura dos brasileiros encontra-se abaixo do potencial porque as condições de vida existentes
estão longe de níveis satisfatórios. Mesmo admitindo a progressiva redução da subnutrição, a
existência de saneamento básico para a maioria das populações de nossos grandes centros, o
surgimento de discussões sobre a necessidade de uma reeducação alimentar (indicando que parte da
população não tem problemas de subnutrição, mas sim de qualidade em sua dieta alimentar), as
desigualdades quanto ao acesso aos serviços de saúde e de higiene em geral e à renda ainda são
muito grandes. Tudo isso se mostra nas diferenças de estatura entre os brasileiros, segundo regiões e
níveis de rendimentos, aqui identificadas. Com isso, reiteramos a importância dessa medida
antropométrica para avaliar os resultados das políticas sociais e econômicas e não apenas os seus
custos.
1 Obviamente, isso não é uma defesa da escravidão. Se os cativos tivessem níveis subjetivos maiores de bem-estar do que os livres, estes se
ofereceriam para trabalhar como escravos.
2 Vale lembrar, curiosamente, que a análise de regressão deve seu nome ao trabalho de Francis Galton justamente sobre as alturas das gerações (ver
Salsburg, 2001).
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ALTURA E CONDIÇÕES DE VIDA: UM RESUMO
Podemos dividir a energia resultante do consumo de alimentos entre o que serve para a
manutenção das funções vitais e o que constitui reserva energética para a execução de atividades
físicas, com grande destaque para o trabalho. Quando a alimentação é inadequada para ambas as
coisas, surge uma “terceira demanda”: aquela decorrente das doenças que acometem os que se
alimentam mal, isto é, várias doenças tendem a reduzir a capacidade do organismo de absorver os
nutrientes ingeridos. Nesse caso, se não houver alguma melhoria na alimentação, o indivíduo, para
além de correr sério risco de vida, torna-se temporariamente incapacitado para o trabalho, uma vez
que não lhe sobra energia para a realização de atividades corpóreas além das necessárias para a
manutenção do nível basal3.
Ao longo da História, os seres humanos conheceram diferentes padrões de alimentação.
Tais padrões refletem não apenas “preferências culturais”, mas também a própria acessibilidade das
populações aos alimentos, do que os rendimentos e a riqueza são condicionantes em um processo
interativo cujo fim parece estar distante. A. Sen (1999, p. 204) exemplifica tais interações quando
trata das fomes coletivas irlandesas: os burocratas ingleses tendiam a culpar os próprios irlandeses e
seus hábitos culinários pela calamidade que experimentavam, o que, a juízo do economista indiano,
refletia a incompreensão e o distanciamento cultural existente entre as duas ilhas4: o largo consumo
de batatas de então decorria mais da pobreza do que de uma opção.
Na Europa e nos Estados Unidos, a literatura especializada tem enfatizado não apenas o
processo de aumento de altura das populações no século XX, mas também a ocorrência de ciclos.
Isto é, o norte-americano médio de meados do século XVIII era maior do que o de meados do
século XIX e ambos eram mais baixos do que o do século passado. Já a renda per capita dos
Estados Unidos não conheceu ciclos do mesmo gênero. Ela aumentou continuamente no período,
ainda que as taxas de crescimento tenham variado bastante. Desse modo, embora haja uma forte
correlação entre renda per capita e altura, nem sempre essa relação é direta. Tal como aconteceu nos
EUA, na Inglaterra dos séculos XVIII ao XX houve o mesmo ciclo, ainda que o inglês médio fosse
mais baixo do que o estadunidense médio. Em outros países, como a Noruega, houve um contínuo
processo de crescimento da altura média das pessoas, sendo que, em termos internacionais, os
habitantes dos Estados Unidos, maiores do que todos os europeus no Dezoito, no Dezenove e até
1950, foram ultrapassados por holandeses e escandinavos em geral.
Uma das interpretações dadas para o fenômeno do ciclo de altura de vários povos,
segundo o qual os homens do século XIX eram mais baixos do que os dos séculos XVIII e XX, é a
seguinte: apesar do maior nível de rendimento decorrente da Revolução Industrial, os custos da vida
urbana, a mudança nos preços relativos dos alimentos, as longas jornadas de trabalho, das quais
participavam mulheres e crianças, as condições insalubres das cidades industriais, etc. não foram
compensados por salários suficientemente maiores. Isso impôs condições de existência mais duras e
que foram mitigadas, posteriormente, pela legislação social, pelos investimentos em saúde e
3 “In France, during this era (1790) daily consumption was about 1,800 calories. A typical American male in his early thirties requires nearly 2,300
calories for baseline maintenance, and by implication the typical European of the late eighteenth century was much smaller and lighter. This
evidence indicates that the diets in England and France near the end of the eighteenth century were so inadequate that approximately one-fifth of the
labor was incapable of work or could do no more than three hours of light work daily”. (Steckel, 1995, p. 1925).
4 “Charles Edward Trevelyan, na direção do Tesouro durante as fomes coletivas irlandesas, não via grandes erros na política econômica britânica para
a Irlanda (da qual ele era o encarregado); indicou os hábitos irlandeses como parte da explicação para as fomes coletivas. O principal dentre os
defeitos habituais era a tendência dos irlandeses pobres a comer apenas batatas, o que os tornava dependentes de uma única cultura. A opinião de
Trevelyan sobre a causação das fomes coletivas irlandesas permitiu-lhe associá-las à sua análise sobre a culinária irlandesa: ‘Quase não se encontra
mulher alguma da classe camponesa do oeste da Irlanda cuja arte culinária exceda o cozimento de uma batata’. Essa observação é interessante não
apenas por ser raríssimo um inglês encontrar uma ocasião apropriada para proferir uma crítica internacional sobre arte culinária. Mais do que isso, o
ato de apontar o dedo acusador para a parca dieta dos pobres irlandeses ilustra bem a tendência de pôr a culpa na vítima. Dessa perspectiva, na
opinião de Trevelyan, as vítimas conseguiram sozinhas provocar uma calamidade, apesar dos melhores esforços do governo de Londres para impedir”
(Sen, 1999,p. 204). Ver Davis (2001) para uma visão geral da participação de burocratas e governantes nas epidemias de fome no mundo no final do
século XIX.
VIII Encontro de Economia da Região Sul - ANPEC SUL 2005
Área 1 - Trabalho, Pobreza, Desenvolvimento Regional e Economia das Relações Sociais
ALTURA E CONDIÇÕES DE VIDA: UM RESUMO
Podemos dividir a energia resultante do consumo de alimentos entre o que serve para a
manutenção das funções vitais e o que constitui reserva energética para a execução de atividades
físicas, com grande destaque para o trabalho. Quando a alimentação é inadequada para ambas as
coisas, surge uma “terceira demanda”: aquela decorrente das doenças que acometem os que se
alimentam mal, isto é, várias doenças tendem a reduzir a capacidade do organismo de absorver os
nutrientes ingeridos. Nesse caso, se não houver alguma melhoria na alimentação, o indivíduo, para
além de correr sério risco de vida, torna-se temporariamente incapacitado para o trabalho, uma vez
que não lhe sobra energia para a realização de atividades corpóreas além das necessárias para a
manutenção do nível basal3.
Ao longo da História, os seres humanos conheceram diferentes padrões de alimentação.
Tais padrões refletem não apenas “preferências culturais”, mas também a própria acessibilidade das
populações aos alimentos, do que os rendimentos e a riqueza são condicionantes em um processo
interativo cujo fim parece estar distante. A. Sen (1999, p. 204) exemplifica tais interações quando
trata das fomes coletivas irlandesas: os burocratas ingleses tendiam a culpar os próprios irlandeses e
seus hábitos culinários pela calamidade que experimentavam, o que, a juízo do economista indiano,
refletia a incompreensão e o distanciamento cultural existente entre as duas ilhas4: o largo consumo
de batatas de então decorria mais da pobreza do que de uma opção.
Na Europa e nos Estados Unidos, a literatura especializada tem enfatizado não apenas o
processo de aumento de altura das populações no século XX, mas também a ocorrência de ciclos.
Isto é, o norte-americano médio de meados do século XVIII era maior do que o de meados do
século XIX e ambos eram mais baixos do que o do século passado. Já a renda per capita dos
Estados Unidos não conheceu ciclos do mesmo gênero. Ela aumentou continuamente no período,
ainda que as taxas de crescimento tenham variado bastante. Desse modo, embora haja uma forte
correlação entre renda per capita e altura, nem sempre essa relação é direta. Tal como aconteceu nos
EUA, na Inglaterra dos séculos XVIII ao XX houve o mesmo ciclo, ainda que o inglês médio fosse
mais baixo do que o estadunidense médio. Em outros países, como a Noruega, houve um contínuo
processo de crescimento da altura média das pessoas, sendo que, em termos internacionais, os
habitantes dos Estados Unidos, maiores do que todos os europeus no Dezoito, no Dezenove e até
1950, foram ultrapassados por holandeses e escandinavos em geral.
Uma das interpretações dadas para o fenômeno do ciclo de altura de vários povos,
segundo o qual os homens do século XIX eram mais baixos do que os dos séculos XVIII e XX, é a
seguinte: apesar do maior nível de rendimento decorrente da Revolução Industrial, os custos da vida
urbana, a mudança nos preços relativos dos alimentos, as longas jornadas de trabalho, das quais
participavam mulheres e crianças, as condições insalubres das cidades industriais, etc. não foram
compensados por salários suficientemente maiores. Isso impôs condições de existência mais duras e
que foram mitigadas, posteriormente, pela legislação social, pelos investimentos em saúde e
3 “In France, during this era (1790) daily consumption was about 1,800 calories. A typical American male in his early thirties requires nearly 2,300
calories for baseline maintenance, and by implication the typical European of the late eighteenth century was much smaller and lighter. This
evidence indicates that the diets in England and France near the end of the eighteenth century were so inadequate that approximately one-fifth of the
labor was incapable of work or could do no more than three hours of light work daily”. (Steckel, 1995, p. 1925).
4 “Charles Edward Trevelyan, na direção do Tesouro durante as fomes coletivas irlandesas, não via grandes erros na política econômica britânica para
a Irlanda (da qual ele era o encarregado); indicou os hábitos irlandeses como parte da explicação para as fomes coletivas. O principal dentre os
defeitos habituais era a tendência dos irlandeses pobres a comer apenas batatas, o que os tornava dependentes de uma única cultura. A opinião de
Trevelyan sobre a causação das fomes coletivas irlandesas permitiu-lhe associá-las à sua análise sobre a culinária irlandesa: ‘Quase não se encontra
mulher alguma da classe camponesa do oeste da Irlanda cuja arte culinária exceda o cozimento de uma batata’. Essa observação é interessante não
apenas por ser raríssimo um inglês encontrar uma ocasião apropriada para proferir uma crítica internacional sobre arte culinária. Mais do que isso, o
ato de apontar o dedo acusador para a parca dieta dos pobres irlandeses ilustra bem a tendência de pôr a culpa na vítima. Dessa perspectiva, na
opinião de Trevelyan, as vítimas conseguiram sozinhas provocar uma calamidade, apesar dos melhores esforços do governo de Londres para impedir”
(Sen, 1999,p. 204). Ver Davis (2001) para uma visão geral da participação de burocratas e governantes nas epidemias de fome no mundo no final do
século XIX.
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educação, pelo saneamento básico, pelo tratamento da água para consumo, entre outras melhorias
das condições de vida.
Reforçando os argumentos relativos à renda e às duras condições de vida enfrentadas
pelos trabalhadores na Revolução Industrial, Robert Fogel (2004, p. 40) afirma que a diferença de
altura entre ricos e pobres ingleses foi de 12 cm no século XIX, ao que se associavam fortes
diferenças em termos de expectativa de vida e, obviamente, de renda. O mesmo se passava em
outros países europeus, como Alemanha e França, a respeito dos quais os dados encontram-se
disponíveis. Com o passar do tempo, o aumento do nível de rendimentos de todos, relativamente
maior entre os pobres do que entre os ricos, e a construção de instituições de bem-estar social,
levaram a uma queda da diferença de altura. Na Inglaterra de hoje, a diferença de altura entre os
homens de maior e menor rendimento é de apenas 2,5 cm, tendo desaparecido na Suécia e na
Holanda, onde os homens têm 1,81 m de altura em média (Fogel, 2004, p. 41).
O aumento da renda dos norte-americanos entre 1875 e 1995, por exemplo, levou a uma
redução substancial do percentual dos gastos com comida, roupas e abrigo, indicando a saciedade
com o consumo dos bens necessários à satisfação dessas necessidades, as quais são fortemente
correlacionadas com a estatura da população, e abrindo espaço para que novas necessidades e
satisfações surgissem. No século XIX, as despesas com os três itens acima mencionados
correspondiam a 74% do orçamento das famílias estadunidenses, representando apenas 13% no
final do século XX (Fogel, 2004, p. 89).
Enquanto as pessoas encontram-se em fase de crescimento, se não há restrições
alimentares, espera-se que haja um forte crescimento nos primeiros anos de vida e na adolescência,
sendo que meninas tendem a finalizar o processo de crescimento antes dos meninos. Fora esses dois
momentos, há uma tendência de queda no ritmo do crescimento até a estabilização. Quando
ocorrem eventos que restringem seriamente a boa nutrição, há a tendência de que o aumento de
altura desapareça enquanto permanecerem tais restrições, sendo comum que haja uma certa
recuperação posteriormente, diante de uma nova abundância alimentícia.
Exemplificando tal situação, Steckel (1995, p. 1924) apresenta o caso dos escravos norte-
americanos. Na infância, as crianças sofriam severas restrições alimentares e estavam sujeitas a
doenças em decorrência do regime escravista e da ausência de conhecimentos a respeito de formas
hoje elementares de higiene. O tempo de “licença maternidade” dado às mulheres escravas era por
demais exíguo para garantir um aleitamento materno adequado, o qual findava, aparentemente, aos
três meses de idade. Além disso, a concentração de crianças em um mesmo ambiente e usando os
mesmos talheres e pratos, nas plantations, facilitava o contágio por micróbios causadores da
diarréia, do sarampo, da catapora etc. Os efeitos das deficiências nutricionais, dadas as dificuldades
impostas pelo escravismo ao aleitamento materno, e da falta de higiene na infância sobre o
crescimento são evidenciados pelo fato de que as crianças escravizadas ficavam nos últimos centis
de altura das tabelas de crescimento hoje disponíveis. Já quando adolescentes, os escravos norte-
americanos eram mais bem alimentados e, ao que parece, recuperavam parte do déficit de
crescimento havido nos primeiros anos de vida.
Dessa forma, podemos dizer que há abundantes evidências internacionais que associam a
estatura média das populações às condições de vida em que vivem e em que viveram, sendo de se
esperar que o aumento dos rendimentos per capita, a melhor distribuição de renda e os programas
sociais em geral tenham efeitos positivos sobre a altura dos indivíduos.
EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS
Steckel (1995, p. 1906) argumenta que a altura pode ser um excelente indicador da
qualidade de vida e do desenvolvimento, seguindo a agenda proposta por A. Sen (1999, capítulo 2)
a respeito dos padrões de vida.
VIII Encontro de Economia da Região Sul - ANPEC SUL 2005
Área 1 - Trabalho, Pobreza, Desenvolvimento Regional e Economia das Relações Sociais
educação, pelo saneamento básico, pelo tratamento da água para consumo, entre outras melhorias
das condições de vida.
Reforçando os argumentos relativos à renda e às duras condições de vida enfrentadas
pelos trabalhadores na Revolução Industrial, Robert Fogel (2004, p. 40) afirma que a diferença de
altura entre ricos e pobres ingleses foi de 12 cm no século XIX, ao que se associavam fortes
diferenças em termos de expectativa de vida e, obviamente, de renda. O mesmo se passava em
outros países europeus, como Alemanha e França, a respeito dos quais os dados encontram-se
disponíveis. Com o passar do tempo, o aumento do nível de rendimentos de todos, relativamente
maior entre os pobres do que entre os ricos, e a construção de instituições de bem-estar social,
levaram a uma queda da diferença de altura. Na Inglaterra de hoje, a diferença de altura entre os
homens de maior e menor rendimento é de apenas 2,5 cm, tendo desaparecido na Suécia e na
Holanda, onde os homens têm 1,81 m de altura em média (Fogel, 2004, p. 41).
O aumento da renda dos norte-americanos entre 1875 e 1995, por exemplo, levou a uma
redução substancial do percentual dos gastos com comida, roupas e abrigo, indicando a saciedade
com o consumo dos bens necessários à satisfação dessas necessidades, as quais são fortemente
correlacionadas com a estatura da população, e abrindo espaço para que novas necessidades e
satisfações surgissem. No século XIX, as despesas com os três itens acima mencionados
correspondiam a 74% do orçamento das famílias estadunidenses, representando apenas 13% no
final do século XX (Fogel, 2004, p. 89).
Enquanto as pessoas encontram-se em fase de crescimento, se não há restrições
alimentares, espera-se que haja um forte crescimento nos primeiros anos de vida e na adolescência,
sendo que meninas tendem a finalizar o processo de crescimento antes dos meninos. Fora esses dois
momentos, há uma tendência de queda no ritmo do crescimento até a estabilização. Quando
ocorrem eventos que restringem seriamente a boa nutrição, há a tendência de que o aumento de
altura desapareça enquanto permanecerem tais restrições, sendo comum que haja uma certa
recuperação posteriormente, diante de uma nova abundância alimentícia.
Exemplificando tal situação, Steckel (1995, p. 1924) apresenta o caso dos escravos norte-
americanos. Na infância, as crianças sofriam severas restrições alimentares e estavam sujeitas a
doenças em decorrência do regime escravista e da ausência de conhecimentos a respeito de formas
hoje elementares de higiene. O tempo de “licença maternidade” dado às mulheres escravas era por
demais exíguo para garantir um aleitamento materno adequado, o qual findava, aparentemente, aos
três meses de idade. Além disso, a concentração de crianças em um mesmo ambiente e usando os
mesmos talheres e pratos, nas plantations, facilitava o contágio por micróbios causadores da
diarréia, do sarampo, da catapora etc. Os efeitos das deficiências nutricionais, dadas as dificuldades
impostas pelo escravismo ao aleitamento materno, e da falta de higiene na infância sobre o
crescimento são evidenciados pelo fato de que as crianças escravizadas ficavam nos últimos centis
de altura das tabelas de crescimento hoje disponíveis. Já quando adolescentes, os escravos norte-
americanos eram mais bem alimentados e, ao que parece, recuperavam parte do déficit de
crescimento havido nos primeiros anos de vida.
Dessa forma, podemos dizer que há abundantes evidências internacionais que associam a
estatura média das populações às condições de vida em que vivem e em que viveram, sendo de se
esperar que o aumento dos rendimentos per capita, a melhor distribuição de renda e os programas
sociais em geral tenham efeitos positivos sobre a altura dos indivíduos.
EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS
Steckel (1995, p. 1906) argumenta que a altura pode ser um excelente indicador da
qualidade de vida e do desenvolvimento, seguindo a agenda proposta por A. Sen (1999, capítulo 2)
a respeito dos padrões de vida.
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Stature measures performance by health history rather than inputs to
health, which has the advantage of incorporating the supply of
inputs to health as well as demands on those inputs...
Gilberto Freyre conta que foi inspirado a escrever Casa Grande & Senzala quando, em
viagem pelos Estados Unidos na década de 20, percebeu que os negros norte-americanos eram
visivelmente maiores do que os brasileiros5. Para Gilberto Freyre, tal diferença se devia menos ao
clima e a fatores raciais, então reputados essenciais na determinação de inúmeras características
dos povos, do que aos diferentes regimes sociais a que se submetiam populações de origens
semelhantes6.
As evidências empíricas citadas e coletadas por Steckel (1995, p. 1910) corroboram a
impressão de Freyre:
In a review of studies covering populations in Europe, New Guinea, and México, L. A. Malcolm
(1974) concludes that differences in average height between populations are almost entirely the
product of the environment. Using data from well-nourished populations in several developed
and developing countries, Martorell and Habicht (1986) report that children from Europe or
European descent, African or African descent, and from India or the Middle East have similar
growth profiles.
Ainda argumentando a partir de outras fontes, Steckel afirma:
Although tropical climates have a bad reputation for diseases, Maurice King (1966) argues that
poor health in developing countries is largely a consequence of poverty rather than climate. A
group of diseases are spread by vectors that need a warm climate, but poverty is responsible for
the lack of doctors, nurses, drugs, and equipment to combat these and other diseases. Poverty,
via malnutrition, increases the susceptibility to disease (Steckel, 1995, p. 1911).
Segundo Steckel (1995) e Fogel (2004), a altura de diferentes povos tendeu a aumentar,
no século XX, em decorrência de melhorias sensíveis nos ambientes onde viviam. Essas
modificações ambientais devem ser entendidas em sentido amplo, tal como o desenvolvimento
para Sen (1999), isto é, incluindo não apenas aquelas decorrentes de um nível mais elevado de
rendimentos, o que faculta às pessoas alimentarem-se melhor, mas também os resultados de
políticas públicas que diminuam a exposição das pessoas a agentes infecciosos, como, por
exemplo, uma adequada inspeção sanitária dos alimentos, a distribuição de água tratada e uma
eficiente coleta de lixo e esgoto.
Nesses termos, argumenta Steckel (1995, p. 1912), ainda que o índice de correlação entre
média de altura e renda per capita varie de 0,82 a 0,87, é necessário considerar outros elementos,
como a distribuição de renda. O coeficiente de Gini mostrou-se negativamente relacionado com a
média de altura das populações analisadas (Steckel, 1995, p. 1914); ou seja, quanto pior a
distribuição de renda de um determinado país, menor a média de altura das pessoas. A concentração
de renda reduz a estatura por motivos óbvios: constituindo os de mais baixa renda a maioria dos
indivíduos das populações, serão eles que terão maiores dificuldades para ter acesso aos nutrientes
necessários, por meio do mercado, para a satisfação dos potenciais genéticos de que dispõem.
Além disso, os cuidados com saúde, no que respeita à assistência médica, correlacionam-
se positivamente com a renda. Sendo as doenças responsáveis pela geração de “desperdício de
5 “(...)Vi uma vez, depois de mais de três anos maciços de ausência do Brasil, um bando de marinheiros nacionais – mulatos e cafuzos – descendo não
me lembro se do São Paulo ou do Minas pela neve mole do Brooklin. Deram-me a impressão de caricaturas de homens. (...) A miscigenação resultava
naquilo. Faltou-me quem me dissesse então, como em 1929 Roquette Pinto aos arianistas do Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram
simplesmente mulatos ou cafuzos os indivíduos que eu julgava representarem o Brasil, mas cafuzos e mulatos doentes” (Freyre, 1977, p. 77).
6 “Ligam-se à monocultura latifundiária males profundos que têm comprometido, através de gerações, a robustez e a eficiência da população
brasileira, cuja saúde instável, incerta capacidade de trabalho, apatia, perturbações de crescimento, tantas vezes são atribuídas à miscigenação (...)”
(Freyre, 1977, p. 79).
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Stature measures performance by health history rather than inputs to
health, which has the advantage of incorporating the supply of
inputs to health as well as demands on those inputs...
Gilberto Freyre conta que foi inspirado a escrever Casa Grande & Senzala quando, em
viagem pelos Estados Unidos na década de 20, percebeu que os negros norte-americanos eram
visivelmente maiores do que os brasileiros5. Para Gilberto Freyre, tal diferença se devia menos ao
clima e a fatores raciais, então reputados essenciais na determinação de inúmeras características
dos povos, do que aos diferentes regimes sociais a que se submetiam populações de origens
semelhantes6.
As evidências empíricas citadas e coletadas por Steckel (1995, p. 1910) corroboram a
impressão de Freyre:
In a review of studies covering populations in Europe, New Guinea, and México, L. A. Malcolm
(1974) concludes that differences in average height between populations are almost entirely the
product of the environment. Using data from well-nourished populations in several developed
and developing countries, Martorell and Habicht (1986) report that children from Europe or
European descent, African or African descent, and from India or the Middle East have similar
growth profiles.
Ainda argumentando a partir de outras fontes, Steckel afirma:
Although tropical climates have a bad reputation for diseases, Maurice King (1966) argues that
poor health in developing countries is largely a consequence of poverty rather than climate. A
group of diseases are spread by vectors that need a warm climate, but poverty is responsible for
the lack of doctors, nurses, drugs, and equipment to combat these and other diseases. Poverty,
via malnutrition, increases the susceptibility to disease (Steckel, 1995, p. 1911).
Segundo Steckel (1995) e Fogel (2004), a altura de diferentes povos tendeu a aumentar,
no século XX, em decorrência de melhorias sensíveis nos ambientes onde viviam. Essas
modificações ambientais devem ser entendidas em sentido amplo, tal como o desenvolvimento
para Sen (1999), isto é, incluindo não apenas aquelas decorrentes de um nível mais elevado de
rendimentos, o que faculta às pessoas alimentarem-se melhor, mas também os resultados de
políticas públicas que diminuam a exposição das pessoas a agentes infecciosos, como, por
exemplo, uma adequada inspeção sanitária dos alimentos, a distribuição de água tratada e uma
eficiente coleta de lixo e esgoto.
Nesses termos, argumenta Steckel (1995, p. 1912), ainda que o índice de correlação entre
média de altura e renda per capita varie de 0,82 a 0,87, é necessário considerar outros elementos,
como a distribuição de renda. O coeficiente de Gini mostrou-se negativamente relacionado com a
média de altura das populações analisadas (Steckel, 1995, p. 1914); ou seja, quanto pior a
distribuição de renda de um determinado país, menor a média de altura das pessoas. A concentração
de renda reduz a estatura por motivos óbvios: constituindo os de mais baixa renda a maioria dos
indivíduos das populações, serão eles que terão maiores dificuldades para ter acesso aos nutrientes
necessários, por meio do mercado, para a satisfação dos potenciais genéticos de que dispõem.
Além disso, os cuidados com saúde, no que respeita à assistência médica, correlacionam-
se positivamente com a renda. Sendo as doenças responsáveis pela geração de “desperdício de
5 “(...)Vi uma vez, depois de mais de três anos maciços de ausência do Brasil, um bando de marinheiros nacionais – mulatos e cafuzos – descendo não
me lembro se do São Paulo ou do Minas pela neve mole do Brooklin. Deram-me a impressão de caricaturas de homens. (...) A miscigenação resultava
naquilo. Faltou-me quem me dissesse então, como em 1929 Roquette Pinto aos arianistas do Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram
simplesmente mulatos ou cafuzos os indivíduos que eu julgava representarem o Brasil, mas cafuzos e mulatos doentes” (Freyre, 1977, p. 77).
6 “Ligam-se à monocultura latifundiária males profundos que têm comprometido, através de gerações, a robustez e a eficiência da população
brasileira, cuja saúde instável, incerta capacidade de trabalho, apatia, perturbações de crescimento, tantas vezes são atribuídas à miscigenação (...)”
(Freyre, 1977, p. 79).
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POF
POF microdata
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