The genogram as a research instrument of the impact of stressful events in the family-school transition / O genograma como instrumento de pesquisa do impacto de eventos estressores na transição família-escola
ABSTRACT The beginning of school life is a special moment in the life cycle that may be influenced by stressful events such as family loss and separation, as well as by conflicting relationship patterns between the present family and the family of origin. This article aims to demonstrate the use of the genogram as a research instrument in developmental psychology with the following objectives: characterize the family configurations, identify stressful events in the families' life cycle, especially, loss and separation experiences, and to analyze the relationship patterns between the nuclear family and the family of origin. A collective case study was carried out with six families and their children age five to six, three of whom were considered as having an easy adaptation to school and the other three as having a difficult adaptation. The mothers were interviewed and asked to construct their family genograms. Specific and distinct features were found regarding family configurations, stressful life events and relationship patterns in each group. The implications of the use of the genogram as a research instrument of the impact of stressful events in the family-school transition are discussed.
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O Genograma como Instrumento de Pesquisa do Impacto
de Eventos Estressores na Transição Família-Escola
The Genogram as a Research Instrument of the Impact Of Stressful Events
in the Family-School Transition
Luciana Castoldi*, Rita de Cássia Sobreira Lopes & Laíssa Eschiletti Prati
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
Resumo
O início da vida escolar é um momento especial dentro do ciclo vital que pode ser dificultado por eventos
estressores tais como perdas e separações familiares, assim como por padrões de relacionamento conflituosos
entre a família atual e a de origem. Neste artigo, pretende-se demonstrar o uso do genograma como instrumento
de pesquisa em psicologia do desenvolvimento, com os seguintes objetivos: caracterizar as configurações
familiares, identificar eventos estressores no ciclo vital das famílias, em especial, as perdas e separações, e
analisar os padrões de relacionamento entre a família atual e a de origem. Realizou-se estudo de caso coletivo
com seis famílias de crianças de cinco a seis anos, três delas consideradas como tendo adaptação fácil e três
com adaptação difícil à escola de educação infantil. As mães foram entrevistadas e solicitadas a construir seu
genograma familiar. Foram encontradas características específicas e distintas quanto às configurações familiares,
aos eventos estressores na família atual e aos padrões de relacionamento nos dois grupos analisados. As
implicações do uso do genograma como instrumento de pesquisa do impacto de eventos estressores na transição
família-escola são discutidas.
Palavras-chave: Genograma; perdas; separação; padrões de relacionamento familiar.
Abstract
The beginning of school life is a special moment in the life cycle that may be influenced by stressful events
such as family loss and separation, as well as by conflicting relationship patterns between the present family
and the family of origin. This article aims to demonstrate the use of the genogram as a research instrument
in developmental psychology with the following objectives: characterize the family configurations, identify
stressful events in the families’ life cycle, especially, loss and separation experiences, and to analyze the rela-
tionship patterns between the nuclear family and the family of origin. A collective case study was carried out
with six families and their children age five to six, three of whom were considered as having an easy adapta-
tion to school and the other three as having a difficult adaptation. The mothers were interviewed and asked to
construct their family genograms. Specific and distinct features were found regarding family configurations,
stressful life events and relationship patterns in each group. The implications of the use of the genogram as
a research instrument of the impact of stressful events in the family-school transition are discussed.
Keywords: Genogram; loss; separation; family relationship patterns.
A entrada da criança na escola é uma etapa fundamental
no desenvolvimento infantil e familiar. Embora se saiba
que a trajetória família-escola é inevitável, nem sempre
este é um percurso fácil. As crianças ingressam cada vez
mais jovens nas instituições formais de ensino e nem sem-
pre elas, a escola ou a família estão preparadas para esta
nova experiência de separação.
Na perspectiva do ciclo vital da teoria sistêmica (Andolfi
& Angelo, 1988; Bowen, 1979/1991; Carter & McGoldrick,
1989/1995; Falicov, 1991; Minuchin & Fishman, 1990),
entende-se que os momentos mais sensíveis para o desen-
volvimento familiar estão na transição de uma etapa do
ciclo vital para outra. Na etapa da família com filhos pe-
quenos, aceitar que o filho está preparado ou necessita
freqüentar o ambiente escolar, seria um destes momentos
vulneráveis, denominados por Carter e McGoldrick de
estressores desenvolvimentais ou “horizontais”.
Para as autoras, a família pode estar exposta a estressores
“verticais” (também chamados transgeracionais) ou “ho-
rizontais” (desenvolvimentais). Os estressores verticais
incluem padrões, mitos, tabus, expectativas, segredos e
legados transmitidos de geração a geração. Já os estres-
sores horizontais estão relacionados às transições do ci-
clo vital e incluem tanto os eventos previsíveis, inerentes
à passagem de uma etapa do ciclo vital para outra, quanto
os imprevisíveis, que podem romper o processo de ciclo
de vida, tais como morte prematura, enfermidade crônica,
nascimento de criança deficiente, entre outros.
Para fins deste estudo, será considerado se os estressores
relacionados a perdas por morte e a separações dos pais
têm relação com a facilidade ou dificuldade de adaptação
* Endereço para correspondência: Rua José Honorato dos
Santos, 100/401 - Porto Alegre, RS, 90050 040. Fone: (54)
3212 5541. E-mail: lucianacastoldi@uol.com.br
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da criança à escola de educação infantil. Para tanto, bus-
cou-se subsídios na teoria do apego de Bowlby (1969/
1990a, 1973/1990b, 1980/1990c) pelo fato de o autor ter
expandido a visão do desenvolvimento para além dos pro-
cessos intrapsíquicos, e por referir-se a perdas e separa-
ções reais. De acordo com Bowlby (1980/1990c), a forma
como a pessoa se separa de alguém é diretamente propor-
cional ao seu apego a esta pessoa. O autor entende que a
experiência mais dolorosa que se pode sofrer é a perda real
da pessoa amada e acrescenta que a família tem importância
fundamental na elaboração do processo de luto infantil, prin-
cipalmente pela forma como notifica e esclarece as dúvidas
infantis. Assim, segundo o autor, experiências de perda e
separação na família estarão sempre relacionadas ao apego
pré-existente entre a criança e seus cuidadores.
Conforme afirmam Carter e McGoldrick (1989/1995),
quando a morte for acidental e inesperada (estressor ho-
rizontal ou imprevisível), aquela que foge ao ciclo vital
familiar, os efeitos parecem ser ainda mais intensos no
desenvolvimento infantil. Segundo Brown (1995), a morte
de um progenitor, quando os filhos são pequenos, pode
trazer conseqüências disfuncionais para gerações poste-
riores, com rupturas familiares e prejuízos no estabeleci-
mento de novos sentimentos de intimidade.
Para Bromberg (1994), o significado dado à morte pela
criança varia de acordo com a idade, seu momento de de-
senvolvimento psicológico, a forma como os adultos li-
dam com a perda e a qualidade da sua relação anterior
com a pessoa falecida. Em momentos de perdas e separa-
ções, acrescenta a autora, importa o respaldo encontrado
na rede de apoio social e familiar.
Sobre a separação conjugal, Andolfi e Angelo (1988)
entendem que ela implica, sempre, em uma reestruturação
profunda, não apenas dos cônjuges envolvidos, mas dos
filhos, das famílias de origem e de toda a rede social envol-
vida. Balaban (1985), especialista em educação infantil,
refuta o mito de que filhos de pais separados tenham mais
dificuldades de adaptação ao ambiente escolar, embora aten-
te para o fato de que a entrada na escola possa reviver
experiências recentes de abandono e perda.
Com o propósito de mapear as configurações familiares
de crianças que estão iniciando sua vida escolar, buscando
identificar os estressores, principalmente aqueles relacio-
nados a perdas e separações familiares, bem como os rela-
cionamentos existentes entre as famílias atual e de ori-
gem, optamos pela representação da família em três gera-
ções. O genograma nos pareceu ser um instrumento que
se presta à coleta de dados pretendida, além de ser com-
patível com a perspectiva da teoria sistêmica familiar, abor-
dagem teórica deste estudo.
O genograma é a representação gráfica (através de sím-
bolos que incluem basicamente círculos, quadrados e li-
nhas) da composição familiar e dos relacionamentos bási-
cos em, pelo menos, três gerações (Carter & McGoldrick,
1989/1995). Ele permite, de uma forma rápida e clara,
visualizar quais são os membros que constituem a família,
tenham eles vínculos consangüíneos ou não, identificando
a idade e ocupação (profissão/escolaridade) de cada pes-
soa, além de retratar o lugar ocupado por cada um dentro
da estrutura familiar.
Através do genograma, pode-se saber qual é a família atual
do sujeito (paciente identificado), qual a situação dos casais
(se ocorreu separação, divórcio ou concubinato e há quanto
tempo foi). Pode-se, ainda, constatar a ocorrência de ado-
ção, aborto, natimorto ou nascimento de gêmeos. Também
podem ser identificadas as doenças sérias e as pessoas já
falecidas, sendo registrado o ano e o motivo de cada morte.
Outras informações relevantes podem ser incluídas no
genograma, tais como a procedência das pessoas, data de
migração, a ocorrência de alcoolismo, obesidade, uso de
drogas, encarceramento, aposentadoria, entre outros.
Quanto aos padrões de interação familiar, segundo a
classificação de Carter e McGoldrick (1989/1995), pode-
se registrar, através do genograma, a ocorrência de rela-
cionamentos muito próximos, relacionamentos confli-
tuados, relacionamentos distantes, rompimentos, desaven-
ças ou relacionamentos fusionados e conflituados, entre
duas ou mais pessoas. Entendemos que a qualidade dos
vínculos estabelecidos entre os familiares das crianças em
período de adaptação escolar e destes com a sua família de
origem pode garantir maior estabilidade neste momento
de transição do ciclo vital.
Neste estudo, o que se pretende é ilustrar a utilização
do genograma como um instrumento de pesquisa para
analisar o impacto de estressores horizontais, especialmen-
te perdas e separações, na transição família-escola. Basea-
do em uma dissertação de mestrado (Castoldi, 1997) que
investigou a história de perdas e separações na família e a
adaptação da criança à escola de educação infantil, o
genograma será utilizado com os seguintes objetivos: ca-
racterizar as configurações familiares, identificar eventos
estressores no ciclo vital das famílias, em especial, as per-
das e separações na família atual e na família de origem, e
analisar os padrões de relacionamento na família atual e
entre esta e a família de origem.
Método
Participantes
Foram selecionados, entre 94 alunos de três diferentes
turmas de educação infantil de uma escola da rede pública
estadual da periferia de Porto Alegre, 3 alunos que se adap-
taram facilmente à rotina escolar, sendo um de cada tur-
ma, e 3 alunos que revelaram mais dificuldades ao se adap-
tar, e suas respectivas famílias. A escolha dos alunos, para
cada um dos dois grupos, foi baseada num acordo
consensual entre as três professoras e as pesquisadoras,
após um período de observação. No grupo de alunos com
dificuldades de adaptação encontram-se dois alunos (Léo
Gabriel e Bárbara) selecionados por sua conduta agitada,
agressiva e sem limites e uma aluna (Suelen) escolhida
por sua rigidez, tristeza, apatia e alheamento. Em comum,
destaca-se o fato de todos os alunos apresentarem dificul-
dades em adaptar-se à rotina da escola, com baixo apro-
veitamento das atividades e prejuízo no vínculo com o
grupo de colegas. Os alunos com facilidade de adaptação
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formaram vínculo rapidamente com os colegas e a profes-
sora, adequaram-se à rotina escolar e mostraram-se satis-
feitos com o ambiente escolar.
Delineamento e Procedimentos
Foi realizado um estudo de casos coletivo (Stake, 1994),
com o objetivo de compreender os casos extremos de boa
e má adaptação à escola de educação infantil, selecionados
a partir dos critérios previamente definidos pelas profes-
soras e pelo grupo de pesquisadores, através das observa-
ções realizadas durante o período de adaptação. Tal perío-
do compreendeu os 23 dias úteis do primeiro mês letivo
do ano; a observação iniciava-se 15 minutos antes do iní-
cio da aula, quando os pais ou familiares permaneciam com
as crianças no pátio, o momento da “entrega” dos filhos à
professora, e momentos diversos da rotina escolar (hora
da rodinha, do lanche, da higiene, do pátio...), somando 30
minutos diários de observação por turma.
Na coleta de dados (entrevistas com as seis mães e
acompanhamento do período de adaptação das crianças),
trabalharam três pesquisadoras previamente treinadas,
pois as entrevistas com as mães e as observações em sala
de aula aconteceram simultaneamente, nas três turmas
de educação infantil. As pesquisadoras registravam as
observações, mas desconheciam os critérios utilizados
para a classificação do grupo bem ou mal adaptado, es-
tando, portanto, “cegas” quanto aos objetivos do estudo.
Instrumentos
Foi utilizado o Genograma Familiar que teve como obje-
tivo avaliar a configuração familiar, verificar a ocorrência
de eventos estressores com ênfase nas perdas e separações,
e avaliar os padrões de relacionamento entre a família atual
e a família de origem. As mães foram solicitadas a identifi-
car as pessoas que faziam parte da família, referindo a idade
e ocupação de cada um, destacando as pessoas falecidas e a
situação conjugal. Também deveriam identificar eventos
estressores ligados a perdas e separações. Foi-lhes solicita-
do, ainda, que destacassem os relacionamentos especiais de
proximidade ou conflito entre os familiares. Para análise do
genograma foram utilizadas as convenções propostas por
McGoldrick e Gerson (1985).
Resultados
Os resultados deste estudo serão apresentados em duas
etapas. Inicialmente, será apresentada a análise do geno-
grama de cada caso. A seguir, serão analisados, conjunta-
mente, três casos de boa adaptação (Casos 1, 2 e 3) e de má
adaptação à escola de educação infantil (Casos 4, 5 e 6).
Os nomes das pessoas foram alterados, por questões éti-
cas. Procurou-se, no entanto, manter as semelhanças de
iniciais entre familiares e o uso de nomes simples ou com-
postos, quando era o caso.
Caso 1
Rafael, de 5 anos e 7 meses, é o mais novo de dois ir-
mãos, filhos de Reinaldo, 33 anos, segundo grau, supervisor
de vendas e Rosane, também de 33 anos, segundo grau
completo, que trabalha como gerente comercial. O casal
tem mais uma filha, Rafaela, de 10 anos, que cursa a quin-
ta série.
O genograma familiar, tal como se apresentava no mo-
mento em que foi realizada a entrevista, é apresentado na
Fig. 1.
Figura 1. Genograma familiar do caso 1.
Rose, como prefere ser chamada a mãe, nasceu no sul, e
mudou-se para São Paulo aos seis anos, após o nascimen-
to do seu único irmão, devido ao trabalho do pai. Enfren-
tou a separação dos pais quando tinha 12 anos, voltando
com a mãe e o irmão para Porto Alegre. Morou com a
mãe até se casar, mas como já trabalhava e era indepen-
dente, conta que não sentiu dificuldades em adaptar-se ao
casamento.
Reinaldo, o pai, é o mais novo de quatro filhos e também
morou em casa até se casar. No início do ano perdeu sua
mãe, aos 72 anos, de “câncer fulminante”, fato que abalou
toda a família. Em função da doença da avó, o pai de Rafael
teve que deixar o emprego, para revezar-se com os irmãos
nos cuidados hospitalares.
Em um contato posterior, quando o Rafael já se mostra-
va adaptado à rotina escolar, a mãe relatou que o pai fez
um surto depressivo, após a morte da sua mãe (avó de
Rafael), precisando ser hospitalizado. Em função da do-
ença, o marido ficou bastante envolvido com seu pai e pa-
rou de trabalhar, sendo, portanto, ela quem sustenta a casa.
A análise do genograma revela a repetição da configu-
ração da família de origem da mãe, na família atual: casal
e dois filhos, com uma diferença de 5 anos entre si, sendo
a menina a filha mais velha, e o menino o mais jovem.
Esta repetição é percebida pela mãe, quando comenta que
os filhos têm a mesma diferença de idade que ela e seu
irmão. Percebe-se, ainda, um forte vínculo entre a famí-
lia atual e a família de origem materna. A mãe e o irmão
moram próximos, e, juntos com a avó materna, constitu-
íram uma empresa familiar, onde todos trabalham. O
marido não estava incluído nesta empresa, mesmo quan-
do morava em casa.
Trata-se de uma família tipicamente nuclear, formada
pelo casal e dois filhos, conforme retrata o genograma. As
avós aparecem como pessoas fortes e queridas, com quem
a família estabelece bom vínculo. Já a figura do avô, mes-
mo o que ficou viúvo recentemente, não foi referida.
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Família-Escola.
Caso 2
Aline, 5 anos e 11 meses, é a mais nova de quatro filhos,
tem um irmão de 11 anos, na quarta série, na mesma esco-
la, um irmão de 16 anos, na quinta série, e uma irmã de 17
anos, que está em casa. João, o pai, tem 42 anos, é pedrei-
ro, e a mãe, Maria, tem 36 anos e trabalha como copeira.
O genograma apresentado na Fig. 2 retrata a configu-
ração familiar existente no momento da entrevista.
Figura 2. Genograma familiar do caso 2.
Maria é a segunda de uma família de três filhos: tem um
irmão mais velho, que mora com uma companheira, e uma
irmã mais moça, casada, com um filho. Há um ano, Maria
perdeu o pai, que era alcoolista, por câncer desencadeado
por uma intoxicação com agrotóxico.
João morou com os pais naturais até dois anos. De famí-
lia muito humilde, conta que vivia “atirado”, como menino
de rua. Aos dois anos foi oficialmente adotado por um ca-
sal de origem alemã, que não possuía filhos. Poucos meses
antes da morte da madrasta, o pai engravidou outra mu-
lher. Nesta época, João não morava mais com os pais ado-
tivos, teve problemas de relacionamento com eles, e foi
morar com uma tia a partir dos seus 11 anos. Aos 16 anos
esta tia faleceu, fato que abalou muito João. Ele continuou
morando com a filha desta tia, ajudando no sustento da
casa, até se casar, aos 24 anos.
Durante o período de namoro Maria engravidou e, como
não tinham condições de se casar, ela induziu o aborto
com uso de chás. Após o casamento, com a situação finan-
ceira mais definida, tiveram os quatro filhos.
Trata-se de uma família nuclear, na qual a aluna é a ca-
çula de quatro filhos. A configuração familiar aproxima-
se mais do modelo da família materna, conforme pode-se
observar no genograma. Também neste caso aparece um
padrão de repetição nas duas gerações, pela escolha de
maridos alcoolistas. Tal como no caso anterior, a avó ma-
terna mantém um vínculo muito próximo com a neta em
questão, mostrando integração entre a família atual e a
família de origem, da parte materna.
Caso 3
Renan, 6 anos e 1 mês é o único filho de José, 35 anos,
segundo grau, maquinista e de Regina, 38 anos, primeiro
grau incompleto, do lar, e nasceu 7 anos após o casamento.
O genograma apresentado na Fig. 3 retrata a configu-
ração familiar obtida no momento da entrevista.
Figura 3. Genograma familiar do caso 3.
A mãe é a oitava de 12 filhos e recorda que, na infância,
era muito arteira, não queria estudar. Perdeu o pai aos 6
anos, sendo criada pela mãe e os irmãos. Quando adoles-
cente, mudou-se com uma irmã, que se casou. Não achou
difícil sair de casa. Aos 26 anos, casou-se com José, com
quem teve o Renan. Conta que a família sofreu muito com
a perda de uma cunhada, há três anos, a primeira experi-
ência de morte, depois de adulta. Este ano, sua mãe mu-
dou-se do interior, para a capital, seu sogro se aposentou
e o Renan, que freqüenta creche desde os três anos, trocou
de escola, para cursar a educação infantil.
Também neste caso trata-se de uma família nuclear, desta
vez formada pelo pai, a mãe, e o único filho. A família nu-
clear segue um modelo mais próximo da família paterna,
de três filhos; na família da mãe, também nuclear, eram 12
filhos, que vivenciaram a morte do pai ainda pequenos. O
relacionamento familiar aparenta ser bom, a mãe destaca
nunca ter ficado separada do filho ou do marido, exceto
por motivos de trabalho, quando este viaja. Parece existir
uma boa relação entre a mãe e a avó.
Síntese dos Casos de Adaptação Fácil à Escola de Educação
Infantil
Nos três casos que se destacaram pela facilidade das cri-
anças em adaptar-se à escola, os alunos possuíam a mes-
ma faixa de idade (com variação de 5 meses) e dois deles
não tinham experiência prévia de escolaridade formal, ape-
nas Renan (Caso 3) freqüentara creche por 3 anos.
Cabe destacar que neste pequeno grupo de crianças bem
ajustadas à escola nenhuma experienciou a separação dos
pais. Igualmente, nenhum destes alunos sofreu perda na
família atual, todos têm contato com o pai, a mãe e os ir-
mãos. Já em relação à família de origem, os três alunos
perderam um dos avós e um aluno perdeu uma tia. Embo-
ra tenha sido destacado o forte vínculo das crianças com
os avós (em todas estas famílias, as avós apareceram como
figuras importantes, com quem os pais estimulavam o con-
tato e a proximidade afetiva), aparentemente, estas perdas
não interferiram no processo de adaptação destas crianças
à escola.
Nas famílias de origem, apareceram histórias de perdas
e separações importantes. Por exemplo, nos Casos 1 e 2
houve separação, morte e/ou abandono por parte dos pais.
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O Caso 2 é um caso de adoções múltiplas por parte do pai.
No último Caso (3), a mãe foi criada sem seu pai, desde os
seis anos de idade. Estas famílias, entretanto, buscaram
algum tipo de compensação pelas perdas, separações ou
abandonos, através da família atual, valorizando a união
familiar. Isto ficou especialmente evidente nos Casos 1 e
2. Chamou a atenção, também, o vínculo próximo com a
família de origem, especialmente com as avós, do lado
materno, em todos os casos.
A facilidade com que as três crianças adaptaram-se ao
contexto escolar foi confirmada pelo parecer das profes-
soras, ao final do ano, que revelou que todas elas apre-
sentaram um bom aproveitamento das atividades letivas,
destacando-se por sua criatividade, colaboração e relacio-
namento interpessoal. Nenhuma delas apresentou qual-
quer dificuldade quanto à conduta, relacionamento ou
aquisições de conhecimentos. Ao final do ano letivo, todos
foram considerados aptos a freqüentar a primeira série.
Caso 4
Léo Gabriel tem 5 anos e 6 meses e é o único filho do
segundo casamento da mãe, Tereza Maria, 45 anos, do lar,
com Léo Batista, de 50 anos, motorista. Anteriormente,
Tereza fora casada durante sete anos com Carlos, com
quem teve dois filhos: Marcos e Marcelo, atualmente com
15 e 11 anos.
A Figura 4 retrata a configuração da família, no mo-
mento da entrevista.
Figura 4. Genograma familiar do caso 4.
Tereza é a mais velha de dois filhos; quando estava com
5 anos, o irmão nasceu e, em seguida, os pais se separa-
ram. Foi criada apenas pela mãe, que não voltou a se casar.
Quando o pai de Tereza morreu, ela estava com 15 anos e
mantinha um relacionamento distante com ele. Morou com
a mãe até se casar, grávida, aos 29 anos. Conta que a mãe
aceitou com facilidade o casamento com Carlos. Ela já
trabalhava fora de casa desde os 17 anos, e o casal perma-
neceu morando no mesmo terreno até o nascimento do
segundo filho, quando, então, mudaram-se de bairro.
O pai dos meninos foi assassinado, durante uma briga
de vizinhos, há nove anos, quando os filhos tinham dois e
seis anos. Após a inesperada morte do marido, Tereza
permaneceu morando sozinha com os filhos. Mãe e filhos
tiveram atendimento psicológico. Passados dois anos, e
alegando que os meninos pediam um “novo pai”, Tereza
casou-se com Léo Batista. Desta união, nasceu Léo Gabriel.
O casamento durou cerca de cinco anos, terminando devi-
do aos desentendimentos de Léo Batista com os filhos do
primeiro casamento, e pelo seu uso abusivo de álcool.
No ano em que os pais se separaram, aos 2 anos de ida-
de, Léo Gabriel já freqüentava a creche, onde permaneceu
até o último ano. Nesta instituição, o menino apresentou
diversos problemas de conduta, chegando a cair de uma
janela, no segundo andar do prédio, necessitando hospita-
lização para avaliação neurológica. Este ano, mudou para
a mesma escola onde estudaram os irmãos, para iniciar a
educação infantil.
Esta família é marcada pela ausência paterna, que tem
início na família de origem da mãe. A perda e a busca de
um pai aparecem com freqüência no depoimento materno.
Pode ser destacado o tratamento diferenciado para com o
filho mais novo, que se torna explícito no depoimento
materno, quando esta se refere ao menino como “este aqui”,
“o guri” ou “em termos de Léo Gabriel”. Léo Gabriel é
fruto do segundo casamento, sem sucesso, de Tereza. Nas-
cido após um momento traumático para a família, pelo
assassinato do pai dos seus irmãos, o menino também
carrega o peso de ter um pai alcoolista. Do pai, Léo Gabriel
é o único filho. Com a mãe, divide espaço junto aos dois
irmãos mais velhos, “que não dão trabalho, apesar de tudo
o que viveram”, e que se destacam em atividades escolares
e esportivas. Sem dúvida, Léo Gabriel não é o “filho ideal”,
assim como o segundo marido também não foi o “pai
ideal” para os dois primeiros filhos.
O genograma retrata uma família que foi reconstituída,
mas que atualmente é uniparental, com ausência da figura
paterna (a mãe ficou viúva do primeiro casamento e está
separada do segundo marido). A análise do genograma
mostra a repetição da ausência da figura paterna, uma
vez que seus pais separaram-se quando ela estava com 5
anos, e sua mãe optou por criar os filhos sozinha. Na famí-
lia atual, aparece uma distorção nos papéis, pela ausência
da figura paterna, fazendo com que o irmão mais velho,
aos 15 anos, assuma a autoridade do pai, junto aos mais
jovens.
Quanto ao momento do ciclo vital, trata-se de uma fa-
mília com filho pequeno e com filhos adolescentes; os
conflitos referentes à educação infantil de Léo Gabriel
parecem trazer mais transtornos que a própria adoles-
cência dos filhos maiores. Embora apareça um vínculo
de dependência de Tereza com sua mãe, com quem mo-
rou até os 29 anos (ou de cuidado, uma vez que a avó era
sozinha), pelo relato, nesta entrevista, não é possível ava-
liar o relacionamento entre a família atual e a de origem.
Caso 5
Bárbara, 5 anos e 8 meses, é a única filha de Maria
Aparecida, 31 anos, segundo grau, professora e Clóvis,
taxista, falecido há dois anos.
A figura 5 mostra como estava configurada a família, no
momento da entrevista.
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Família-Escola.
Figura 5. Genograma familiar do caso 5.
Maria Aparecida é a mais velha dos quatro filhos de
Gabriel e Jurema. Morou com os pais em Porto Alegre
até perder a mãe, há dez anos. Após a morte da mãe, o pai,
viúvo, mudou-se com os filhos para o Rio de Janeiro, por-
que lá moravam outros familiares. Permaneceram por 12
anos lá, e agora, há seis meses, quase 4 anos após a morte
do pai, os filhos retornaram para Porto Alegre.
No Rio, Aparecida começou a namorar o Clóvis, um
rapaz mineiro, que estava passando as férias no local.
Quando Aparecida o conheceu, Clóvis já tinha perdido o
pai e a mãe, e vivia com os dois irmãos mais velhos, hoje
com quase 50 anos, ambos solteiros. A família de Aparecida
era muito rígida. Assim, após um período de namoro
“vigiado”, os dois noivaram e se casaram. A gravidez de
Bárbara foi planejada e ocorreu quase três anos após o
casamento, seguindo um aborto espontâneo, no quarto mês
de gestação.
O casal sempre trabalhou fora; o pai sustentava a casa e
Aparecida mantinha as despesas com a filha. Lembra que
o marido nunca comprava nada para a menina, mas esta
era muito apegada a ele. Há quatro anos, morreu o pai de
Aparecida, único avô de Bárbara, mas os filhos continuam
morando no Rio.
Há dois anos, o pai da menina foi assassinado, após
um assalto durante o trabalho. Clóvis estava com 43 anos
e Bárbara, com 3 anos; fazia seis anos que ele e Aparecida
estavam casados. Aparecida não tinha recursos sequer para
providenciar o enterro do marido. Conta que quem a au-
xiliou foi a equipe de professores e os pais dos alunos da
escola onde trabalhava.
Passados quinze dias da morte do marido, Aparecida
descobriu que ele tinha outra família: uma mulher e uma
filha, pouco mais velha que a Bárbara, registrada em car-
tório. Como o pai não deixou pensão, esta família vem re-
querer a partilha dos móveis e bens da casa de Aparecida.
Devido às constantes visitas inoportunas desta mulher, e
pelo alto custo de vida, Aparecida retorna com Bárbara
para o sul. Compra um pequeno apartamento, com o di-
nheiro da rescisão do seu contrato de professora, e tenta
recomeçar a vida. Atualmente está desempregada, tem di-
ficuldade de procurar emprego, por não ter com quem
deixar a menina, e alega enfrentar muita discriminação
devido à sua cor negra. Bárbara está agitada, apresenta
enurese noturna e revela, algumas vezes, desejar morrer,
para reencontrar o pai.
Esta é uma família uniparental, como no caso anterior,
formada pela mãe e sua única filha, Bárbara. O assassi-
nato do pai, durante o trabalho como taxista, caracteriza
um evento estressor imprevisível, e um momento de crise
dentro do ciclo vital desta família, ainda em fase de re-
estruturação. É uma família pequena, sem rede de apoio.
Da família de origem, restam apenas os tios, irmãos de
Aparecida, todos em dificuldades financeiras, que, embora
mantenham vínculo afetivo, não têm possibilidade de dar
apoio às duas.
Da história familiar, deve-se destacar a história de per-
das, separações e mudanças. Quando Aparecida perdeu a
mãe, ainda solteira, enfrentou a mudança de estado e de
cultura. Durante o casamento, ocorreu a perda de um bebê,
no quarto mês de gestação, e a perda do pai. A morte ines-
perada do marido há quase dois anos, novamente deter-
minou a mudança de cidade, além da queda no padrão de
vida da família, da perda do emprego da mãe e da desco-
berta de que não era sua única esposa. Para Bárbara, a
perda do pai acarretou na mudança de escola, na perda
dos amigos e do espaço de exclusividade junto à memória
de um pai querido e idealizado, de quem acreditava ser
exclusiva, no lugar de filha.
É importante considerar que a situação atual da família
é difícil, especialmente pelo desemprego da mãe e pela
falta de uma rede de apoio para esta pequena família. Quan-
do a mãe comparece à escola, seu relato é de um sofrimen-
to sincero de quem precisa recomeçar a vida, com uma filha
pequena, e não encontra apoio. Por outro lado, percebe-se
que ela é resistente em aceitar sugestões e conselhos vin-
dos da escola, e chega a pensar na institucionalização da
filha, em um semi-internato, como sua única solução para
retornar ao trabalho.
Caso 6
Suelen nasceu em 06/05/90, e estava com 5 anos e 10
meses no início do ano letivo. É a primeira filha de Dir-
ceu, 24 anos, primeiro grau, borracheiro, falecido há um
ano e de Tânia, 23 anos, primeiro grau incompleto, auxili-
ar de enfermagem. A mãe teve um segundo casamento,
com Júlio, 24 anos, do qual nasceram Júlia, de 4 anos e
Juliana, de 2 anos.
A configuração familiar no momento da entrevista é
apresentada na Figura 6.
Figura 6. Genograma familiar do caso 6.
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Psicologia: Reflexão e Crítica, 19(2), 292-300.
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Suelen é a única filha do casamento de Tânia com Dir-
ceu. O casal namorava há algum tempo, contra a vontade
de ambas as famílias. Tânia é a terceira de seis filhos;
Dirceu tinha mais quatro irmãos. Quando ela estava com
15 anos e ele 17, fugiram de casa para se casar. Ela
engravidou e o casamento terminou logo após o nasci-
mento de Suelen, devido ao fato de ele não deixá-la tra-
balhar fora e ter sua independência.
Pouco tempo depois, Tânia reencontrou Júlio, um ex-
colega de escola, e passou a viver com ele. Desta união
nasceu a Júlia, e, dois anos após, a Juliana. Durante este
casamento, Suelen permaneceu morando com os avós.
Segundo a mãe, esta foi uma opção da própria menina que
não aceitava o Júlio, preferindo morar com seu avô ou
com seu pai. Suelen tornou-se uma menina calada e ner-
vosa. Após o nascimento da terceira filha, e, com a inten-
ção de reunir as três meninas, Tânia separou-se de Júlio,
retornando à casa paterna.
Há um ano, enquanto Tânia viajava, em férias, com as
duas meninas menores, Dirceu foi assassinado, junta-
mente com sua nova companheira, grávida de quatro
meses, e um amigo do casal. O crime ocorreu na bor-
racharia, ao lado da casa dos avós, onde estava Suelen. A
menina viu o pai baleado, com o corpo estendido no chão.
Testemunhas teriam visto o autor do crime: Júlio, que
está preso, acusado pelo assassinato.
Até o início da educação infantil, Júlio permanecia na
prisão, Tânia não queria mais contato com ele. Mãe e fi-
lhas continuam morando com os avós; o avô materno pas-
sou a fazer uso abusivo de álcool e Suelen dormia com a
foto do pai embaixo do travesseiro.
A análise da configuração familiar indica uma família
que foi uniparental (por morte do pai), passou a recons-
tituída e que novamente é uniparental, com a ausência da
figura paterna (pela separação do casal). Chama a atenção
o fato de a mãe identificar-se como “viúva” e não como
estando separada do segundo marido.
A análise do genograma aponta um relacionamento
conflituado com o segundo marido e um vínculo muito
próximo e conflituado com sua mãe, que a espancou até a
gravidez da Suelen, mas de quem ela nunca conseguiu se-
parar-se, entregando-lhe, inclusive, a educação desta filha.
Aparece um tratamento claramente diferenciado da mãe
para com as filhas do segundo casamento, o que se confir-
ma em seu depoimento (por ex. quando diz que estava
viajando “com as minhas filhas”, a Suelen não estava in-
cluída). Pode-se supor que o vínculo mais consistente de
Suelen, uma vez que o pai está morto, seja com o avô ma-
terno (que é alcoolista) – ela preferiu morar com o avô a
conviver com o segundo marido da mãe.
Da situação familiar atual, percebe-se que a Suelen ain-
da passa pelo processo de luto pelo pai; o avô é quem vem
para as reuniões da escola, apesar de ser descrito como
alcoolista pela mãe. Em contatos posteriores, ficou-se sa-
bendo que Tânia novamente tenta refazer sua vida, tendo
se mudado com as duas meninas mais novas. Outra vez,
Suelen encontra-se aos cuidados dos avós.
Síntese dos Casos de Adaptação Difícil à Escola de Educação
Infantil
Das histórias familiares dos casos cujos alunos apre-
sentavam dificuldades de adaptação, deve ser destacada a
história de separação conjugal e a ausência paterna, a qual,
em dois casos, ocorreu devido ao assassinato do pai. Foi o
que ocorreu com a Bárbara (Caso 5), que teve o pai assas-
sinado enquanto trabalhava, no Rio, como taxista, e que,
com sua morte, teve que mudar de cidade, conviver com a
mãe desempregada, aceitar a queda na qualidade de vida,
além de aceitar o fato de que o pai tinha outra esposa e
outra filha de sua idade. Suelen (Caso 6) também enfren-
tou uma perda traumática, ao presenciar o pai “com o cor-
po forrado de bala”, depois de ter sido assassinado pelo
segundo marido de sua mãe; antes de perder o pai, teve
que se acostumar às ausências freqüentes da mãe, que se
mudou com as irmãs menores, quando se casou pela se-
gunda vez, deixando-a aos cuidados dos avós. Léo Gabriel
(Caso 4) não perdeu o pai, o qual está apenas separado de
sua mãe, por ser alcoolista, mas a família carrega a marca
do assassinato do primeiro marido da mãe, pai de seus
irmãos, ocorrida após uma briga de vizinhos.
A situação atual das três famílias também apresenta
particularidades: as famílias de Suelen e Bárbara ainda estão
vivendo o período de luto pela morte dos pais; ambas as
mães buscam redefinir suas vidas profissionais e afetivas,
e mostram-se um pouco afastadas emocionalmente de suas
filhas. Na família de Léo Gabriel, um dos irmãos, que se
destaca em atividades esportivas, está prestes a viajar
para as Olimpíadas, um evento que tem mobilizado toda
a família.
Deve ser destacado o fato de que, nestas famílias, apare-
ceu uma incidência maior de eventos estressores na famí-
lia atual, tais como: mudança de cidade, troca de emprego
ou desemprego dos pais, alcoolismo ou encarceramento
de pessoas que tiveram contato próximo com a família.
Quanto ao vínculo destas famílias com as famílias de
origem, em contraste com o grupo anterior, não foram
observados vínculos de proximidade das mães com suas
próprias mães. No Caso 4, não foi feita nenhuma referên-
cia especial ao vínculo com a avó materna; no Caso 5, a
avó materna havia falecido e, no Caso 6 havia uma relação
muito conflituosa e ambivalente da mãe com a sua mãe.
Neste último, parecia haver um vínculo de mais confiança
da aluna com o avô paterno do que com a própria mãe,
apesar de ele ser alcoolista. Isto se confirma pelo fato de
ter sido ele a pessoa que acompanhou a Suelen durante o
período de adaptação.
Com relação à história de perdas na família de origem,
observaram-se perdas dos avós paternos nos Casos 4 (am-
bos), 5 (ambos) e 6 (pai). Do lado materno, observaram-se
perdas de ambos os avós no Caso 5. Nenhuma destas per-
das, no entanto, receberam atenção especial nos depoimen-
tos das mães. Somente no primeiro caso (Caso 4) houve
separação conjugal na família de origem, no lado mater-
no, com conseqüente abandono pelo pai, quando ela esta-
va com 5 anos.
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Castoldi, L., Lopes, R.C.S., & Prati, L.E. (2006). O Genograma como Instrumento de Pesquisa do Impacto de Eventos Estressores na Transição
Família-Escola.
Discussão
Através da análise dos genogramas das famílias foram
percebidas diferenças importantes entre os grupos de alu-
nos com adaptação fácil e difícil à escola de educação in-
fantil quanto às perdas e separações reais na família. A
ausência de história prévia de separação dos pais curiosa-
mente foi encontrada apenas no grupo de crianças que se
ajustaram bem à escola. As crianças com adaptação fácil
não enfrentaram perdas por morte em suas famílias atu-
ais, nem experienciaram a separação dos pais, enquanto
nos três casos de adaptação difícil ocorreram experiências
extremas de perda, sendo que dois destes alunos perde-
ram o pai por assassinato há menos de dois anos, e outro
aluno vivenciou o assassinato do primeiro marido da mãe,
pai de seus irmãos.
Já em relação a perdas na família de origem, não foram
constatadas diferenças, visto que alunos dos dois grupos
sofreram perdas de familiares, geralmente os avós. A morte
violenta e inesperada caracteriza o que Carter e
McGoldrick (1989/1995) denominaram de “estressor ho-
rizontal”: um evento imprevisível que justifica a
disfuncionalidade da família, podendo gerar um grande
rompimento no equilíbrio do sistema familiar.
É importante analisar o contexto familiar em que ocor-
reram estas perdas, bem como as repercussões das mes-
mas para o funcionamento familiar. Léo Gabriel enfrenta
a falta do pai (pela separação do casal), em uma família
que experenciou o assassinato do primeiro marido da mãe,
pai de seus dois irmãos, estes idealizados pela mãe; sua
dificuldade de adaptação à escola pode ser entendida como
uma forma de delimitar seu espaço na sala de aula, prova-
velmente para compensar a sua falta de espaço na família.
Para Bárbara, a perda do pai foi real e traumática (assassi-
nato), e acarretou a mudança de cidade, as dificuldades
financeiras, o desemprego e a desestruturação da mãe, re-
forçados pela falta de uma rede familiar que apoiasse mãe
e filha; a dificuldade de adaptação da menina parece estar
em sintonia com sua situação familiar atual. Também
Suelen enfrentou a perda real do pai por assassinato, com
o agravante de não ter estabelecido uma relação de apego
forte e adequada com a mãe (morava com os avós, ele
alcoolista, ela agressiva); suas dificuldades de adaptação
parecem estar associadas ao luto pelo pai, sua principal
figura de apego e, com tanta tristeza, a escola não parece
suficientemente atrativa para um novo investimento afetivo.
A análise dos padrões de relacionamento entre a família
atual e de origem possibilitou a visualização das triangula-
ções entre as famílias atuais e as famílias de origem, prin-
cipalmente quanto ao relacionamento das mães com as
avós. Para os teóricos da terapia familiar sistêmica, o triân-
gulo é a forma básica de relacionamento familiar. Para
Bowen (1979/1991), em situações de tensão, como nas perdas
e separações, as alianças entre os familiares, que normal-
mente oscilam de uma pessoa para outra, podem acarretar
o privilégio de alguma pessoa em detrimento de outras.
Examinando as relações estabelecidas com as famílias
de origem observou-se um vínculo diferente entre as fa-
mílias atuais e de origem, nos dois grupos. No grupo de
adaptação fácil os avós apareceram como pessoas impor-
tantes, com quem a família estabelecia um vínculo de pro-
ximidade afetiva, sendo as mães ajudadas por suas mães.
Nas famílias cujos filhos apresentaram dificuldades de
adaptação, os avós geralmente apareciam como pessoas
distantes ou ausentes e a família atual, na maioria dos ca-
sos formada apenas pela mãe e os filhos, refletia a carência
de uma rede de relações familiares que a apoiasse.
Quanto à presença de eventos estressores, através do
genograma observamos que nos dois grupos apareceram
situações familiares difíceis, na época das entrevistas, tais
como: doenças graves dos pais, alcoolismo, troca de em-
prego ou residência, mas a incidência de estressores fami-
liares foi maior nos casos de adaptação difícil.
Considerações Finais
Este estudo teve o propósito de ilustrar a aplicabilidade
do genograma na pesquisa em psicologia do desenvolvi-
mento, especificamente no estudo da família cujos filhos
encontravam-se em processo de adaptação à educação in-
fantil. O genograma possibilitou a análise das configura-
ções familiares, facilitou a identificação de eventos estres-
sores no ciclo vital das famílias, em especial, as perdas e
separações, e a análise dos padrões de relacionamento na
família atual e entre esta e a família de origem.
Observamos que a ocorrência de eventos estressores
imprevisíveis, tais como a morte violenta de um dos pais,
associada à carência de vínculos de proximidade afetiva
nas famílias atual e de origem, marcaram as histórias das
crianças com dificuldades de adaptação à pré-escola. A
separação conjugal dos pais não pareceu estar associada à
melhor ou pior adaptação, mas, em qualquer configuração
familiar, a existência de uma rede de apoio efetiva, e de vín-
culos familiares de proximidade indicaram uma transição
mais fácil entre a família e a escola. Destacamos o fato de
que as crianças com facilidade de adaptação tinham sem-
pre o mesmo adulto (mãe, pai ou avó) como referência nas
horas de chegar e sair da escola.
Entendemos que uma das contribuições deste trabalho
foi o seu caráter transdisciplinar, ao trazer um instrumen-
to originariamente utilizado na clínica sistêmica familiar
para a pesquisa em psicologia do desenvolvimento. P. Minu-
chin (1985) acreditava que a psicologia do desenvolvimento
e a terapia familiar tinham muitas coisas em comum, tal
como o fato de ambas as disciplinas considerarem a famí-
lia como foco primário para a compreensão do comporta-
mento humano. Segundo a autora, a colaboração destas
duas áreas acabou determinando algumas tendências den-
tro da pesquisa em psicologia do desenvolvimento, dentre
elas o incremento de pesquisas com pais e irmãos, o inte-
resse nas seqüências de interações, nos efeitos bidirecionais
e nos conceitos triádicos e ainda a exploração de métodos
para descrever o estado do sistema interacional.
Coerente com as idéias da teoria sistêmica, entendemos
que o genograma é um instrumento de pesquisa que se
destaca por sua praticidade e organização na apresentação
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dos dados, e que se presta perfeitamente ao estudo do
desenvolvimento emocional, principalmente quando se pre-
tende investigar o impacto de eventos estressores horizon-
tais e verticais no desenvolvimento infantil, bem como os
padrões de relacionamento entre a família atual e de ori-
gem. O estudo sugere que vínculos de proximidade afetiva
podem garantir maior estabilidade neste importante mo-
mento de transição do ciclo vital que é a saída de um filho
da família para entrar na escola.
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Recebido: 16/07/2004
1ª revisão: 27/07/2004
Aceite final: 15/09/2005