Síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada: revisão de literatura
ABSTRACT Introdução: A síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada é uma doença rara que atingem tecidos contendo melanócitos como nos olhos, sistema nervoso central, pele e ouvido interno. Apresenta predominância nos asiáticos, indianos e latinoamericanos e no sexo feminino. Objetivo: Realizar uma revisão de literatura sobre os diversos aspectos da Síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada, enfatizando a sua etiopatogenia bem como as manifestações clínicas otorrinolaringológicas através dos bancos de dados on line Cochrane, LILACS, MEDLINE, OMIM e SciELO. Revisão de Literatura: A etiologia é incerta, mas há indícios de processo auto-imune contra antígenos na superfície dos melanócitos determinando uma resposta inflamatória imune com predomínio de linfócitos T. O alelo HLA-DRB1*0405 é o mais associado à doença. As manifestações clínicas são divididas em quatro estágios: prodrômico, uveítico, crônico e de recorrência. As manifestações otorrinolaringológicas se desenvolvem na fase uveítica. Há hipoacusia do tipo neurossensorial bilateral e rapidamente progressiva associada a zumbidos. O comprometimento do componente vestibular leva a vertigem, nistagmo horizontal e alteração do reflexo óculo-vestibular. As manifestações otorrinolaringológicas não têm influência na incidência de recorrências ou nas complicações e têm um bom prognóstico com a realização do tratamento. O diagnóstico desta síndrome é dado através de critérios diagnósticos, mas provas audiológicas podem auxiliá-lo. O tratamento é feito com corticoesteróides. Comentários Finais: O mais importante para o prognóstico é iniciar tratamento imediato. A raridade dessa síndrome faz de seu diagnóstico um desafio e a presença dos quadros clínicos de surdez, zumbido e tontura devem levar a considerar este diagnóstico.
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Síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada: Revisão de Literatura
Vogt-Koyanagi-Harada’s Disease: Literature Review
Stephanie Gonçalves Carneiro*, Dorivaldo Lopes da Silva**, Angélica Cristina Pezzin Palheta***,
Francisco Xavier Palheta Neto****, Cláudio Tobias Acatauassú Nunes*****, Thaís Oliveira Ferreira******,
Talita Valleska de Campos Pereira******, Viviane Cristina dos Santos Monteiro******.
* Aluna do 5º ano do Curso de Medicina da Universidade do Estado do Pará. Monitora da Disciplina de Oftalmologia.
** Aluno do 5º ano do Curso de Medicina da Universidade do Estado do Pará. Monitor da Disciplina de Otorrinolaringologia.
*** Professora Assistente de Otorrinolaringologia da Universidade do Estado do Pará. Mestre em Otorrinolaringologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Doutorando em Neurociências pela Universidade Federal do Pará.
**** Professor Assistente de Otorrinolaringologia da Universidade do Estado do Pará e da Universidade Federal do Pará. Mestre em ORL pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Doutorando em Neurociências pela Universidade Federal do Pará.
***** Professor Adjunto e Chefe da Disciplina de ORL da Universidade do Estado do Pará. Professor Visitante de ORL da Universidade Federal do Pará. Mestre e Doutor
em ORL pela UNIFESP.
****** Aluna do 3º ano do Curso de Medicina. Universidade do Estado do Pará.
Instituição: Universidade do Estado do Pará - UEPA.
Belém / PA – Brasil.
Endereço para correspondência: Stephanie Gonçalves Carneiro – Travessa Rui Barbosa 619 – Apto. 1301 – Belém / PA – Brasil – CEP: 66053-260 – Telefone:
(+55 91) 3242-7178 / 8123-1638 – E-mail: stephaniecarneiro@terra.com.br
Artigo recebido em 1 de dezembro de 2007. Artigo aceito em 16 de março de 2008.
RESUMO
Introdução:
A síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada é uma doença rara que atingem tecidos contendo melanócitos como nos
olhos, sistema nervoso central, pele e ouvido interno. Apresenta predominância nos asiáticos, indianos e latino-
americanos e no sexo feminino.
Realizar uma revisão de literatura sobre os diversos aspectos da Síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada, enfatizando
a sua etiopatogenia bem como as manifestações clínicas otorrinolaringológicas através dos bancos de dados on
line Cochrane, LILACS, MEDLINE, OMIM e SciELO.
A etiologia é incerta, mas há indícios de processo auto-imune contra antígenos na superfície dos melanócitos
determinando uma resposta inflamatória imune com predomínio de linfócitos T. O alelo HLA-DRB1*0405 é o
mais associado à doença. As manifestações clínicas são divididas em quatro estágios: prodrômico, uveítico,
crônico e de recorrência. As manifestações otorrinolaringológicas se desenvolvem na fase uveítica. Há hipoacusia
do tipo neurossensorial bilateral e rapidamente progressiva associada a zumbidos. O comprometimento do
componente vestibular leva a vertigem, nistagmo horizontal e alteração do reflexo óculo-vestibular. As ma-
nifestações otorrinolaringológicas não têm influência na incidência de recorrências ou nas complicações e têm
um bom prognóstico com a realização do tratamento. O diagnóstico desta síndrome é dado através de critérios
diagnósticos, mas provas audiológicas podem auxiliá-lo. O tratamento é feito com corticoesteróides.
O mais importante para o prognóstico é iniciar tratamento imediato. A raridade dessa síndrome faz de seu
diagnóstico um desafio e a presença dos quadros clínicos de surdez, zumbido e tontura devem levar a considerar
este diagnóstico.
síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada, uveomeningoencefalite, hipoacusia, uveíte, irite.
Objetivo:
Revisão de Literatura:
Comentários Finais:
Palavras-chave:
SUMMARY
Introduction:
Vogt-Koyanagi-Harada’s disease is a rare syndrome that affects tissues with melanocytes like eyes, central
nervous system, skin and inner ear. It affects primarily Asians, Indians and Latin Americans and also women.
To review in the literature the several aspects of Vogt-Koyanagi-Harada’s disease focusing on its cause and also
to study its otolaryngology aspects through online databases Cochrane, LILACS, MEDLINE, OMIM e SciELO.
This exact cause remains unknown, but there are evidences of an autoimmune process against an antigenic
component on the melanocyte configuring an inflammatory T-cell-mediated immune response. The HLA-
DRB1*0405 allele is the one that is most associated to the disease. The clinic manifestations are divided in four:
prodromal, uveitic, chronic and recurrence stages. The otolaryngology’s aspects occur at the uveitic stage.
Hearing loss is sensorineural bilateral and quickly progressive and could be associated with tinnitus. The
vestibular component is less affected with vertigo, nystagmus and abnormal vestibular reflex. The otolaryngology’s
manifestations do not influence the recurrences or complications and they also have great prognosis with the
treatment established. The diagnosis of this syndrome is based on clinical criteria, but audiological test could
help. The therapy is corticosteroid-based.
The most important factor for prognosis is the immediately treatment. The rarity of this syndrome makes its
diagnosis a challenge and the presence of deafness, tinnitus and vertigo must consider its diagnosis.
Vogt-Koyanagi-Harada syndrome, uveomeningoencephalitic syndrome, hearing loss, uveitis, iritis.
Objective:
Literature Review:
Final Comments:
Keywords:
Artigo de Revisão
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INTRODUÇÃO
A Síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada (VKH) ou
Síndrome Uveomeningoencefálica é uma doença
multisistêmica rara com a particularidade de atingir órgãos
ou tecidos contendo melanócitos como os olhos, meninges,
sistema nervoso central, pele, membranas mucosas e
ouvido interno (cóclea e aparelho vestibular) (1).
A doença é relatada desde o século IX, onde o médico
árabe ALI IBN ISA fez o primeiro registro de uma inflamação
ocular acompanhada de despigmentação ciliar (2).
No decorrer dos séculos, cientistas como SCHENKL
(1873), VOGT (1906), HARADA (1926), KOYANAGI (1929)
entre outros fizeram relatos independentes de vários
pacientes com quadros de uveítes associadas a surdez,
vitiligo e alopecia. Na primeira metade do século XX, as
desordens anteriormente descritas foram unificadas numa
enfermidade única a qual foi dada o epônimo de Síndrome
de Vogt-Koyanagi-Harada (2,3,4,5).
Apresenta predominância em indivíduos de origem
asiática, indiana e latino-americana, bem como em individuas
com pigmentação de pele escura como miscigenados e
negros, tendo maior proporção no sexo feminino (2:1). O
início do acometimento em geral se dá entre a segunda e
quarta década de vida, podendo ocorrer em qualquer
idade. Contudo, o acometimento na faixa pediátrica está
associado a uma evolução mais agressiva (3,6).
Motivou-nos ao estudo mais profundo da Síndrome
de Vogt-Koyanagi-Harada a atuação interdisciplinar pre-
sente no dia-a-dia do Hospital Universitário Bettina Ferro
de Souza - Universidade Federal do Pará e da Universidade
do Estado do Pará abrangendo as áreas de
Otorrinolaringologia, Oftalmologia, Neurologia e
Dermatologia. Justifica-se a realização deste trabalho pela
necessidade de alertar os profissionais de saúde para a
ocorrência desta síndrome, pouco freqüente, cujo diagnós-
tico incorreto e o erro terapêutico podem cursar com
complicações.
O objetivo deste este é realizar uma revisão de
literatura sobre os diversos aspectos da Síndrome de Vogt-
Koyanagi-Harada, enfatizando a sua etiopatogenia bem
como as manifestações clínicas otorrinolaringológicas.
MÉTODO
A pesquisa através de bancos de dados on line
forneceu as informações e artigos para confecção desta
revisão bibliográfica, podendo estes ser acessados a qual-
quer tempo para pesquisa e atualização, já que são reno-
vados conforme é produzida a literatura científica.
Foram consultadas as bases de dados Cochrane,
LILACS, MEDLINE, OMIM e SciELO, aplicando-se à pesqui-
sa os termos síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada e
síndrome uveomeningoencefálica para artigos publicados
entre aos anos de 1997 e 2007, além da literatura já
consagrada em relação ao assunto.
Etiopatogenia
A etiologia da VKH ainda é incerta, mas há indícios
de um processo auto-imune contra antígenos na superfície
dos melanócitos. Há associação com outras desordens
auto-imunes tal como Tireoidite de Hashimoto e artrite
reumatóide (7,8,9,10).
Há associação da síndrome com complexos maiores
de histocompatibilidade da classe II - MHC classe II, de
subtipo mais envolvido o DR4, e com o alelo HLA-
DRB1*0405 considerado o mais expressivo e predominan-
te nos casos brasileiros (11,12).
A presença desse alelo determina o reconhecimen-
to pelos linfócitos T de peptídeos derivados da tirosinase
e outras proteínas da família da tirosinase que estão
presentes nos melanócitos, determinando assim uma res-
posta inflamatória imune celular com predomínio de
linfócitos T helper 1 (13).
Não se sabe se tal processo é idiopático ou desen-
cadeado por algum gatilho, tal como infecções (14). Há
indícios de que seja por uma infecção, provavelmente
viral, pois o vírus Epstein-Barr foi isolado em pacientes
portadores da síndrome. Todavia esta associação necessita
ser melhor estabelecida (15,16).
Manifestações clínicas
As manifestações clínicas da Síndrome de VKH
podem ser divididas em quatro estágios clínicos: prodrômico,
uveítico, crônico e de recorrência (17).
Na fase prodrômica, os pacientes podem apresentar
cefaléia, febre baixa, fotofobia, meningismo, fraqueza mus-
cular generalizada, hemiparesia, disartria e afasia. Pode haver
ainda pleocitose linfocítica, aumento de pressão e de
proteína na análise liquórica. Os pacientes podem referir
uma hipersensibilidade cutânea e nos cabelos. A duração de
alguns dias, entretanto alguns pacientes podem não apre-
sentar os sintomas dessa fase ou manifestar sinais atípicos
como neurite óptica e paralisia de nervo periférico (1,2,18).
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O quadro evolui para a fase uveítica com sintomas
oculares constituídos por fotofobia, hiperemia conjuntival,
redução da acuidade visual ou borramento visual e dor
ocular. Esta fase pode durar de semanas a meses e
comumente é a responsável pela procura de atendimento
médico. Clinicamente, há uveíte posterior bilateral associ-
ado a edema retiniano, hiperemia e edema de disco óptico
com eventual descolamento de retina (18). Frequente-
mente há acometimento da câmara anterior ocular com
precipitados ceráticos em sebos de carneiro e nódulos
irianos. A pressão intra-ocular pode estar elevada (2). Nesta
fase em uma parcela dos pacientes são encontradas mani-
festações otorrinolaringológicas (19).
Já na fase crônica, de duração de meses a anos, o que
chama atenção para o diagnóstico da síndrome além do
quadro oftalmológico são as manifestações dermatológicas
caracterizadas por poliose de cílios, sobrancelhas e cabelos,
além da presença de vitiligo simétrico em face (1,2,18).
A fase de recorrências é marcada por panuveíte
recorrente granulomatosa associada a presença de compli-
cações como catarata e glaucoma (20).
O diagnóstico na fase crônica e de recorrência é
difícil, principalmente se o paciente não relatar a presença
dos sinais prodrômicos do quadro (21).
Manifestações Otorrinolaringológicas
As manifestações otorrinolaringológicas da síndrome
são caracterizadas pelo comprometimento de ouvido in-
terno, cóclea e aparelho vestibular. Podem estar presente
em 75% dos casos da doença. São sintomas de origem
central se desenvolvem simultaneamente aos achados da
fase uveítica (22).
A base fisiopatológica dos sintomas otorrinolarin-
gológicos está inflamação e na perda dos melanócitos que
são essenciais para o perfeito funcionamento do ouvido
interno. Está implicada também a produção de anticorpos
específicos contra proteínas da orelha interna (23, 24).
O nervo vestíbulo-coclear é - assim como o segundo
par de nervo craniano - um dos principais envolvidos na
síndrome, levando a hipoacusia do tipo neurossensorial,
sendo incluída entre as causas neurológicas periféricas de
súbita perda auditiva neurossensorial (2). São consideradas
as perdas neurossensorias súbitas as de 30 dB ou mais, em
3 freqüências audiométricas contíguas, instaladas em prazo
de até três dias. Não são percebidas alterações timpânicas
que poderiam sugerir um componente de condução na
perda auditiva (25).
A hipoacusia habitualmente é bilateral, rapidamente
progressiva, com prejuízo da capacidade de entender pala-
vras e prejuízo para sons agudos ou todos os sons. O tipo de
evolução da alteração auditiva é característico de uma
hipoacusia de causa auto-imune. Há presença de zumbidos
acompanhando o quadro em 50% dos casos (26,27).
O comprometimento do componente vestibular é
menos freqüente levando a vertigem e outras tonturas,
presença de nistagmo horizontal e alteração do reflexo
óculo-vestibular, não ocorrendo nistagmo na posição pri-
Figura 1. Máculas acrômicas nos supercílios (poliose) -
Reproduzido de: Brito AE; Zagui RB; Rivitti EA; Nico MM.
Você conhece esta síndrome? An Bras Dermatol. 2005:
80(3):297-8.
Figura 2. Uveíte anterior - precipitados ceráticos - Reprodu-
zido de: Brito AE; Zagui RB; Rivitti EA; Nico MM. Você
conhece esta síndrome? An Bras Dermatol. 2005: 80(3):297-8.
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mária do olhar. A falta de sintomas auditivos associado ao
nistagmo fala contra a síndrome e impõe a investigação de
causas centrais para o comprometimento vestibular (28).
Kimura e cols., em um estudo com 20 pacientes
portadores da síndrome, demonstraram alterações clínicas
e laboratoriais na orelha interna de todos os pacientes,
evidenciando assim o importante comprometimento
otoneurológico (24).
A presença de manifestações otorrinolaringológicas
não tem influência na incidência de recorrências ou na
evolução com complicações. Essas manifestações têm um
bom prognóstico quando há remissão do quadro por
realização adequada do tratamento (30).
Diagnóstico
O diagnóstico desta síndrome é dado pela constela-
ção de sinais e sintomas através dos critérios diagnósticos.
Não há testes específicos para sua confirmação (1).
Em 1978, a Sociedade Americana de Uveíte reco-
mendou os primeiros critérios para o diagnóstico provável
dessa síndrome (2), e em 1999 foi organizado o 1º
Workshop Internacional em Síndrome de VKH para revisão
e melhoria dos critérios. Estes levam em conta a natureza
multisistêmica da doença com a inclusão de quadros
oftalmológicos tanto na fase inicial quanto na tardia da
doença. Introduziu-se, então, o conceito de síndrome
completa, incompleta ou provável conforme a quantidade
de sinais presentes (4).
Como critérios da doença, têm-se: (1) a ausência de
história de trauma ocular penetrante ou cirurgia preceden-
do o início da uveíte; (2) ausência de história clínica ou
laboratorial de outra doença ocular; (3) envolvimento
ocular bilateral; (4) presença de achados neurológicos/
auditivos (que já podem ter desaparecido no memento da
apresentação clínica) ou; (5) achados Dermatológicos,
sendo que estes nunca devem preceder a doença ocular ou
as manifestações neurológicas (4,31).
Os pacientes portadores da forma completa da
síndrome devem apresentar todos os critérios clínicos
devidamente preenchidos. Já os pacientes portadores da
forma incompleta apresentam o acometimento ocular
preenchendo os três primeiros critérios associados a pre-
sença de alterações neurológicas e auditivas ou alterações
cutâneas (32).
A síndrome é considerada provável quando apre-
senta apenas os critérios oftalmológicos. Não deve ser
utilizada a terminologia síndrome de VKH atípica (4).
Os pacientes com perda auditiva, zumbido, tonturas
e manifestações associadas devem ser, obrigatoriamente,
submetidos a testes para a avaliação da audição e do
equilíbrio corporal. A seleção dos testes a serem realizados
depende da história clínica dos doentes. As provas
audiológicas podem ajudar no diagnóstico pelo acometi-
mento em grande parte dos pacientes (28).
Por se tratar de uma doença de etiologia provável
auto-imune é necessário a realização de exames como
hemossedimentação, hemograma, mucoproteínas, fator
reumatóide, imunocomplexos circulantes, anticorpos antinu-
cleares, anticorpo anticolágeno tipo II, complemento total
e frações para avaliação da atividade inflamatória, assim
com a investigação de outras desordens associadas (7, 8).
Deve-se avaliar a intolerância a glicose, pois pode
estar presente em 55% dos pacientes (33).
Diagnóstico Diferencial
Diante de casos em que sinais e sintomas oculares
graves se associam com manifestações neurológicas, audi-
tivas e doença dermatológica, um amplo diagnóstico dife-
rencial deve ser listado. Afastadas as hipóteses de doenças
reumatológicas, neoplásicas e infecciosas em uma pacien-
te imunocompetente, a síndrome de VKH deve ser consi-
derada (1, 34).
Dentre as doenças inflamatórias estão presentes, como
diagnóstico diferencial o Lupus Eritematoso Sistêmico, a
Sarcoidose e a Doença de Behçet. Faz-se diagnóstico dife-
rencial com certas doenças infecciosas a exemplo da Sífilis,
Tuberculose, Herpes, Infecções fúngicas, Toxoplasmose,
Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) (1, 34).
Doenças Oftalmológicas e do Sistema Nervoso
Central também entram como diagnóstico diferencial, as
quais se incluem a Oftalmia Simpática, Epiteliopatia Multifocal
Aguda Posterior e Descolamento Múltiplos de Retina
Secundários a Hipertensão Arterial Sistêmica (1, 32).
O comprometimento otorrinolaringológico deve
ser feito com neuronite vestibular, doença de Lyme e
Síndrome de Cogan (35).
Tratamento
O tratamento deve ser precoce e intenso, pois o
diagnóstico rápido da doença é de vital importância. Após
a melhora da sintomatologia, o desmame deve ser lento
em 3 a 6 meses, e deve ser mantido por 1 ano em caso de
recidivas (36).
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O objetivo do tratamento é a supressão da inflama-
ção nos tecidos alvos da doença com utilização de doses
imunossupressoras de corticosteróide. O esquema preco-
nizado pode ser oral (prednisona 1-2 mg/kg/dia) ou em
pulsoterapia (metilprednisolona 1g/dia por 3 a 5 dias) (1).
A pulsoterapia com o uso de medicação endovenosa, tem
sido a terapia de escolha para a síndrome de Vogt-
Koyanagi-Harada (18, 32).
Outros corticóides podem ser utilizados (em caso de
suspeita de disfunção hepática e teste de estimulação
linfocitária anormal), dentre eles estão a Dexametasona
em uma dose de 20 mg/dia ou a Betametasona em uma
dose de 30 mg/dia com probabilidade de boa resposta
terapêutica (36, 37).
Nos pacientes com pouca ou nenhuma resposta
pode ser usada Imunoglobulina humana IV ou
imunossupressores como ciclosporina (o mais utilizado),
azatioprina, ciclofosfamida ou metotrexate com duração
mínima de 1 ano (38).
A adequada orientação terapêutica em otoneurologia
depende essencialmente da precisão do diagnóstico
sindrômico, topográfico e etiológico. Uma múltipla aborda-
gem terapêutica é a melhor atitude em relação à vertigem
e outras tonturas de origem vestibular. A abordagem com
corticoterapia leva a regressão dos sintomas (15).
Atualmente, estudos estão sendo desenvolvidos
para avaliar a utilização de Adalimumab, uma droga com
ação anti-Fator de necrose tumoral (anti-TNF) na síndrome
de Vogt-Koyanagi-Harada (39).
Prognóstico
O mais importante para o bom prognóstico é o
iniciar tratamento imediato com altas doses de drogas
antiinflamatórias para controlar a inflamação (40). A função
auditiva é na maioria das vezes recuperada, enquanto que
as lesões dermatológicas tendem a ser permanentes (15).
Já o prognóstico visual dos pacientes é reservado,
relacionado principalmente ao desenvolvimento de
glaucoma e membrana neovascular subretiniana na fase
crônica. A acuidade visual final melhor do que 20/40 ocorre
em apenas 30% dos casos, tratando-se, portanto, de impor-
tante causa de cegueira (37).
COMENTÁRIOS FINAIS
A raridade da Síndrome de VHK faz de seu diagnós-
tico um desafio (1), mas a precocidade é fundamental. O
diagnóstico dos quadros clínicos de surdez, zumbido, ton-
tura devem sempre considerar a síndrome de Vogt-
Koyanagi-Harada. A presença de alterações oftalmológicas,
otorrinolaringológicas, neurológicas e dermatológicas re-
quer uma equipe médica interdisciplinar, com a participa-
ção ativa dos especialistas em diferentes campos da
medicina ou áreas afins para o manejo da terapia e da
evolução clínica, a fim de se melhorar o prognóstico deste
paciente.
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