A busca do ouro de Cristo: evangelização e destruição
ABSTRACT El presente trabajo busca entender las cuestiones ontológicas de la historia que expliquen lo interese de España por Cuba remetiéndonos a la lógica del proceso de explotación desarrollado por los países colonizadores. Ese movimiento histórico solo puede ser entendido en el interior de la expansión mercantilista y por la audacia del Capital y su esencia expansionista.
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Volume I
Nº 1
Julho/Dezembro 2004 Rio de Janeiro
ISSN 1807-1260
A busca do ouro de Cristo: evangelização e destruição
João dos Santos Filho∗ ∗
Resumo
O presente trabalho busca apreender as questões ontológicas da história que
expliquem o interesse da Espanha por Cuba remetendo-nos à lógica do
processo de exploração desenvolvido pelos países colonizadores. Esse
movimento histórico só pode ser entendido no interior da expansão
mercantilista e pela audácia do Capital e sua essência expansionista.
Palavras-chave: Cristianismo, Capital, Cuba, Expansão capitalista,
Colonialismo.
Resumen
El presente trabajo busca entender las cuestiones ontológicas de la historia que
expliquen lo interese de España por Cuba remetiéndonos a la lógica del
proceso de explotación desarrollado por los países colonizadores. Ese
movimiento histórico solo puede ser entendido en el interior de la expansión
mercantilista y por la audacia del Capital y su esencia expansionista.
Palabras-clave: Cristianismo, Capital, Cuba, Expansión capitalista,
Colonialismo.
∗ Bacharel em Ciências Sociais e turismólogo: Professor da Universidade Estadual de Maringá -
UEM. Professor do curso de turismo da Faculdade Nobel: Mestre em Filosofia e História da
Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Aluno especial do doutorado em
ciência do turismo na ECA/USP. Fundador da Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo
de São Paulo - ABBTUR/SP e do Instituto de Análises sobre o desenvolvimento Econômico
Social - IADES.
Recebido em 10/08/2004. Selecionado para publicação em 10/08/2004.
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Quanto às cousas que deixo de referir, já disse a razão por que me calo,
mas o mesmo não farei acêrca do ouro, pois confirmo com tôda a veemência
o que já disse e escreví a respeito, isto é, que me encontro na verdadeira
fonte dêsse metal.Os genoveses, os venezianos e todos os povos que
possuem pérolas, pedras preciosas e outras cousas de valor, levam-nas ao
extremo do mundo para trocá-las, convertê-las em ouro, pois o ouro é cousa
excelentíssima; do ouro se originam as riquezas; quem o possue faz o que
quer neste mundo, às vêzes basta o seu poder para se mandarem as almas
para o Paraíso. (Salvador de Madariaga – Cristóvão Colombo - carta de
Jamaica, editora Vecchi, Rio de Janeiro, s/d, p.356)
La acumulación de oro y plata, de dinero, es la primera manifestación
histórica de la aglomeración de capital y el primer medio importante para
ella. Pero no es todavía, en cuanto tal, acumulación de capital. Para tal cosa
sería necesario que los bienes acumulados volvieran de nuevo a la
circulación como momento y medio de acumulación. (Carlos Marx -
Grundrisse, editora Fondo de Cultura,v.1, p. 124 )
P
ara discutirmos a singularidade ontológica∗ ∗ que está contida na
história Cubana, devemos iniciar nossa reflexão pelo processo
ocorrido junto à civilização ocidental. A ela iremos nos referir
entendendo que existe uma anterioridade expansionista latente
gerada pelos interesses objetivos do capital e do cristianismo. Essa marca
presente no interior da historiografia mundial e especificamente cubana se
apresenta de forma mais transparente quando compreendermos que:
...Os descobrimentos deram nova dimensão ao fenômeno da colonização, e
por vezes à sua natureza, mas o expansionismo lhe é anterior...A expansão
européia começa com as Cruzadas, primeira expressão do "imperialismo".A
tradição ocidental, ao contrário, considera as Cruzadas uma tentativa de
reconquistar a Terra Santa do islamismo, que se apossara de uma terra
cristã. Assim, de um jeito ou de outro uma história européia da colonização
parte necessariamente dessa periferia da cristandade1.
Essa expansão da racionalidade (também entendida como civilização
capitalista) ocidental que na verdade imprime à humanidade a lógica da
conquista e da colonização. Segundo o cientista e sociólogo Florestan
Fernandes se traduz em uma forma organizada e sistemática de colonialismo
∗ Entendemos por singularidade ontológica, a especificidade única que possui o objeto em
explicitar as propriedades e a existência desse próprio ser.
1 FERRO, M., História das Colonizações - Das conquistas às independências, século XIII a XX.
P.19.
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moderno por parte das Coroas de Portugal e Espanha, inseridas no processo
de acumulação primitiva do capital. As mesmas enfrentaram de forma
contraditória e destruidora as transformações da economia feudal em economia
capitalista, buscando junto ao processo das navegações encontrar a salvação
econômica e espiritual para os Estados absolutistas.
Segundo Marx, a produção lutava para se constituir em produção capitalista
entendendo que as condições dadas deveriam ser objetivadas fora de suas
fronteiras territoriais;
As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização
das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o
início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da
África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que
marcaram os albores da era da produção capitalista. Esses processos
idílicos são fatores fundamentais da acumulação primitiva2.
Na verdade a economia colonial implementou o processo de cristalização do
modo de produção capitalista, porque conseguiu criar as condições para que o
modo de produção feudal fosse negado que segundo Marx, isto ocorreu por
meio de “... diferentes meios propulsores da acumulação
primitiva...".Destruindo espiritualmente os povos indígenas, impondo a religião
cristã e a civilização ocidental e materialmente saqueando o ouro a prata e os
recursos naturais, tornando a escravidão também instrumento de acumulação,
ou seja, implantando de fato as bases para uma economia de mercado.
Assim, aquilo que poderia parecer mero acaso ou despossuido de qualquer
planejamento, como expresso está na historiografia tradicional. Na verdade
foram viagens, que apesar do alto patamar de acidentalidade, proveniente da
precariedade tecnológica dos instrumentos de navegação da época, foram
expressões da intencionalidade "civilizatória" dos homens. Refletindo uma
racionalidade decorrente de sua práxis humana pelo trabalho. Mais uma vez,
Marx preocupado com as questões ontológicas e não deterministas entende
ser o trabalho a categoria explicativa do ser, assim está ele alertando para a
importância do ato teleológico, no qual permite dar respostas a problemas que
a realidade coloca aos homens.
2 Marx,K., O Capital-Crítica da Economia Política, Livro1, Vol. II, p. 868
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Nesse momento o homem esta respondendo às suas necessidades primárias e
secundárias, colocadas historicamente e produzindo valores de uso,
independente de todas as formas de sociedade, pois:
O sistema colonial fez prosperar o comércio e a navegação.
As sociedades dotadas de monopólio, de que já falava Lutero, eram
poderosas alavancas de concentração do capital. As colônias asseguravan
mercado às manufaturas em expansão e, graças ao monopólio, uma
acumulação acelerada. As riquezas apresadas fora da Europa pela
pilhagem, escravização e massacre refluíam para a metrópole onde se
transformavam em capital.3
O entendimento ontológico da categoria trabalho permite essa compreensão,
negando as interpretações de base deterministas; colonialismo e
neocolonialismo ou aquelas cuja descrição empírica está caracterizada pela
nova história. Partindo do pressuposto, que toda ação praticada pelo homem,
tem uma intencionalidade e como a ideação já estava presente de forma
cognitiva.
O individuo não pode ser entendido como afirma a historia tradicional oficial:
escravo das leis da natureza ou do aventurismo epopéico das navegações.
Mas sim, com pleno domínio de seus atos e intenções. Os homens fazem a
história da humanidade por meio do trabalho, que pode estar caracterizado por
ações nem sempre dignificante, cada época corresponde a estágios diferentes
de racionalidades.
A preocupação central do sistema colonial, para com a humanidade pode ser
sintetizada naquilo que Marx sempre alertou, os homens fazem história, mas
não o sabem. Saqueando, destruindo, cooptando ou subornando, estão
modificando a realidade e a si mesmo, configurando formas do existir-
determinações da existência.
Essa marca de racionalidade temporal, traz consigo o significado de civilização,
como afirma Marx, no seu texto clássico sobre a Índia:
É bem verdade que, ao realizar uma revolução social no Hindustão, a
Inglaterra agia sob o impulso dos interesses mais mesquinhos, dando provas
de verdadeira estupidez na forma de impor esses interesses. Mas não se
trata disso. Do que se trata é de saber se a humanidade pode cumprir a sua
missão sem uma verdadeira revolução a fundo do estado social da Ásia. Se
3Marx, Karl. O capital. Livro1, vol.2, p.871
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não pode, então, e apesar de todos os seus crimes, a Inglaterra foi o
instrumento inconsciente da história ao realizar essa revolução.
Nesse caso, por penoso que seja para os nossos sentimentos pessoais
o espetáculo de um velho mundo que se esboroa, do ponto de vista da
história (...)4
A luta entre o velho e o novo tem sentido dentro de uma dialética histórica
ontológica, onde Marx preocupado com esta questão condenou todos aqueles
que de forma oportunista faziam a leitura de suas obras de forma mecânica e
idealista. Neste caso, o grande pensador não poupou nem seus próprios
parentes, pois em correspondência de Engels para Paul Lafarque em 27 de
outubro de 1890, comenta-se que Marx estava preocupado com as várias
interpretações incorretas existentes sobre o materialismo histórico. Como
também, pelo sinônimo personificado de chamá-lo de marxismo, Engels diz
que Marx fez o seguinte comentário: “Todo lo que sé es que yo no soy
marxista”. y probablemente diria de estos señores lo que Heine decia de sus
imitadores: “Sembré dragones y coseché pulgas ".5
Apesar desta preocupação, aparecem várias interpretações pseudoteóricas
desviantes sobre o marxismo que a históriografia mundial acaba incorporando
os conceitos de marxismo e marxista. Comprometendo a própria leitura do
materialismo histórico, além do que, por motivos mais que conhecidos o
mesmo, foi infectado por preceitos positivistas(*) e estruturalistas(**) que
impediram uma compreensão ontológica do verdadeiro marxismo.
Portanto, a questão ontológica se constitui em elemento principal para o
entendimento do processo de colonização. Na verdade ela permite desgarrar-
se das interpretações economicistas de base instrumentalista, que desde o
4 K. Marx e F. Engels. Obras Escolhidas., volume1, p. 291, São Paulo.
5 ARMAS FONSECA, Paquita. Moro: El Gran Aguafiestas., La Habana, 1989, Cuba, p. 132.
(*) (**). Entendemos por preceitos positivistas e estruturalistas contidas na leitura da obra de
Marx, aqueles momentos em que principalmente Stalin por interesse político procurou
secundarizar o estudo de Marx e supervalorizar os estudos de Lênin, para na verdade
sobressair-se como o único e grande pensador do materialismo histórico. Essa vulgarização
aliada a interesses de ordem econômica, favoreceram uns entendimentos mecânicos, lineares
e positivo do materialismo histórico. As internacionais se tornaram elementos estimuladores
para impor uma camisa de força contra as especificidades dos partidos comunistas locais,
negando-lhes autonomia e exercendo um patrulhamento ideológico que permanece até hoje
enraizado nos partidos comunistas. Hoje a literatura crítica ao marxismo e não a Marx já nos
mostra como os preceitos da social democracia foram sendo incorporados pelos partidos e
intelectuais de esquerda. Um estudo interessante que trabalha estas questões e a obra de
George Lukács.