Avaliação da taxa de isolamento de micoplasmas do trato urogenital por um método comercial em comparação com meios de cultura produzidos no próprio laboratório
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INTRODUÇÃO
A
da década de 1990, refletindo as mudanças no comporta-
mento sexual em resposta a epidemia da infecção pelo
HIV. Mas, esta tendência não foi mantida e, a partir de
1994, observou-se a reincidência das patologias de trans-
missão sexual. Gravidez, nascimento a termo e fertilidade
são afetadas pela presença de DTS, tornando-se funda-
mental a investigação de microrganismos como Chlamydia
trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Cândida sp, Trichomo-
nas vaginalis, e os micoplasmas ou molicutes (4).
Duas espécies de molicutes merecem destaque nas in-
fecções do trato genital: Mycoplasma hominis e Ureaplas-
ma urealyticum, adquiridas principalmente por contato se-
xual. Ambas têm sido encontradas tanto no homem quan-
to na mulher em infecções do trato geniturinário inferior.
Ureaplasma urealyticum é responsável por casos de uretri-
te não gonocócica e vaginose bacteriana. Foi associado à fe-
bre pós-parto, corioamnionite e baixo peso ao nascimento.
U. urealyticum era classicamente dividido em 14 sorotipos
e estes agrupados em dois sorogrupos (13). Atualmente, en-
contra-se definida uma nova espécie: U. parvum, que en-
globa os sorotipos que pertenciam ao sorogrupo 1, microbi-
ologicamente indistinguível da espécie U. urealyticum (2).
Mycoplasma hominis é uma das causas de uretrite não go-
nocócica e vaginose bacteriana, associado à febre pós-
aborto e pós-parto (3). Também é uma causa incomum de
incidência de Doenças Sexualmente Transmissíveis
(DSTs) teve um declínio na década de 1980 e no início
bacteremia (8), artrite (9), peritonite (7), meningite (11,15),
feridas infectadas (5), osteomielite e outras infecções pou-
co usuais (6,16).
Mc Cormack e colaboradores demonstraram que as taxas
de colonização por Mycoplasma hominis e Ureaplasma
urealyticum em homens variava de zero a 13% e de 3% a
56%, respectivamente. Dados similares em mulheres de-
monstraram que as taxas de colonização vaginal por M. ho-
minis e U. urealyticum variavam de zero a 31% e de 8,5%
a 77,5%, respectivamente, segundo a idade, raça, experi-
ência sexual e nível sócio econômico (4).
A cultura dos micoplasmas é um procedimento microbioló-
gico razoavelmente simples, entretanto, alguns cuidados
devem ser tomados. A coleta do material deve ser feita em
sítio adequado (fundo do saco posterior), pois trata-se de
uma região com baixa tensão de oxigênio, propícia para o
crescimento destes microrganismos. Tem-se observado al-
guns laboratórios coletando amostras para cultura de mico-
plasmas do endocervice do colo uterino. Outro aspecto de-
licado são os próprios meios de cultura que, para apresen-
tar uma taxa de isolamento adequada, devem ser prepara-
dos com componentes que aumentam significativamente o
seu custo de produção, fazendo com que realmente os mei-
os comerciais tenham um preço bastante elevado. Temos
observado também que alguns laboratórios, na tentativa de
diminuir estes custos, têm realizado as culturas com adap-
tações dos métodos e proporção inóculo/meio de cultura, de
maneira empírica, fora das recomendações dos fabricantes.
Assim, o objetivo principal deste trabalho foi avaliar a taxa
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Avaliação da taxa de isolamento de micoplasmas
do trato urogenital por um método comercial em
comparação com meios de cultura produzidos no
próprio laboratório
Assessing the rate of isolation of mycoplasma treatment of urogenital by a business method in
compared with media culture produced in itself laboratory
Eduardo M. Dalmarco, Solange L. Blatt, Caio M. M. de Cordova
RESUMO - Este trabalho procurou avaliar a taxa de isolamento de Mycoplasma hominis e Ureaplasma urealiticum/U. parvum em
amostras de conteúdo vaginal de 84 mulheres atendidas em um laboratório de analises clínica de Blumenau – SC, por dois meios de
cultura de procedência diferentes. Os resultados demonstraram 50,0 % de positividade para Ureaplasma urealiticum/U. parvum e
20,24% de positividade para Micoplasma hominis por cultura em meio feito em nosso laboratório (P< 0,0001) e 16,67% de positivida-
de para U. urealiticum e 8,33% de positividade para M. hominis por cultura em meio comercial (P< 0,0001). As amostras que foram
cultivadas por meio próprio e obtiveram resultado positivo foram também analisadas por diluições seriadas para identificar a quanti-
dade destes microrganismos expresso em C.C.U. (color changing units). Os resultados demonstraram que 52,94% destas amostras
apresentaram C.C.U. maior que 104para M. hominis e 42,86% apresentaram C.C.U. maior que 103para U. urealyticum, sendo estes
os níveis considerados clinicamente significativos para que a presença destes microrganismos seja implicada na etiologia dos sinto-
mas. No presente trabalho discutiu-se as possíveis causas desta diferença de positividade entre os dois métodos utilizados.
PALAVRAS-CHAVE - micoplasma, ureaplasma, DST, gestantes
SUMMARY - The aim of this work was to evaluate the positivity rate of Mycoplasma hominis and Ureaplasma urealiticum/U. parvum
infection in vaginal content samples of 84 women who attended a clinical laboratory in Blumenau – SC, Brazil, through two distinct
culture methods. Our results showed a positivity rate of 50.0 % for Ureaplasma urealiticum/U. parvum and 20.24% for Micoplasma
hominis by culture with medium produced in our laboratory (P< 0,0001), and a positivity of 16.67% for U. urealiticum and 8.33% for
M. hominis with a commercial culture media (P< 0,0001). Samples that showed molicute growth in our laboratory-produced media we-
re also analyzed through serial dilutions to quantify the bacterial load in C.C.U. (color changing units). Our results showed that 52.94%
of these samples had more than 104C.C.U. of M. hominis, and 42.86% had more than 103C.C.U. for U. urealiticum/parvum, which are
the levels considered clinically significant to input to these microorganisms the etiology of the symptoms. In this paper we discuss the
possible causes for the difference observed among the mollicutes prevalence with the two methods used.
KEYWORDS - mycoplasma, ureaplasma, STD, pregnancy
Recebido em 28/03/2007
Aprovado em 18/03/2008
Universidade Regional de Blumenau – FURB, Departamento de Ciências Farmacêuticas
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de isolamento de micoplasmas e ureaplasmas em mulheres
atendidas em um Laboratório de Análises Clínicas, por um
método comercial, utilizando os procedimentos rotineiros
estabelecidos nesse laboratório, em comparação com a cul-
tura em meios produzidos em nosso laboratório de pesqui-
sa na universidade.
MATERIAL E MÉTODOS
Amostras: Foram coletadas amostras de conteúdo vaginal
de mulheres atendidas em um laboratório de análises clíni-
cas do município, por raspado do fundo do saco posterior,
com auxilio de swab estéril. As amostras foram mantidas
em 2 mL de meio de transporte A3xb, produzido no Labo-
ratório de Análises Clínicas de nossa Universidade, para
cultura imediata de micoplasmas (12). Do mesmo sítio, foi
coletada uma amostra adicional, mantida no meio de trans-
porte comercial fornecido pelo fabricante (NewProv, Curi-
tiba, PR), para cultura no laboratório privado.
Cultura de micoplasmas:
a) Meio próprio: As amostras obtidas no referido laborató-
rio e mantidas em meio de transporte foram cultivadas de
acordo com Taylor-Robinson (12), com algumas modifi-
cações, no Laboratório de Análises Clínicas da universida-
de. Foram inoculados 0,1 mL de amostra no meio sólido A7,
e 0,5 mL de amostra em 2,0 mL de meio líquido U10 e de
meio líquido de Arginina (MLA), com incubação em con-
dições de 2-3% de CO2 por até sete dias a 37 ºC. As amos-
tras foram quantificadas pelo método de microtitulação
(12), em seus respectivos meios líquidos. As culturas que
não apresentaram crescimento em após 7 dias de cultivo
foram consideradas negativas (1).
b) Meio Comercial: Da mesma forma, as amostras em meio
de transporte comercial foram inoculadas nos respectivos
meios de cultura (NewProv, Curitiba-PR), de acordo com o
procedimento padronizado no laboratório privado.
Analise estatística: Para as análises de significância esta-
tística, foi utilizado o programa Microsoft Excel (Microsoft),
e o Teste do chi quadrado, com o auxílio do programa
GraphPad InStat ™ (San Diego, CA, USA).
RESULTADOS
Foram analisadas 84 amostras de pacientes do sexo femini-
no, atendidas no período de julho a novembro de 2004,
através de dois métodos de cultura, sendo que os molicutes
foram identificados inicialmente pela morfologia colônias
em meio sólido, conforme a figura 1.
Do total de amostras analisadas, 8,33% apresentaram re-
sultado positivo para M. hominis pelo método comercial,
enquanto que 20,24% das amostras tiveram resultado po-
sitivo método próprio (P< 0,0001). Com relação à presença
de U. urealyticum, 16,67% das amostras apresentaram re-
sultado positivo pelo método comercial, enquanto que 50%
foram positivas pelo método próprio (P< 0,0001, figura 2).
Das amostras analisadas pelo método próprio, que apre-
sentaram resultado positivo para M. hominis, 52,94% apre-
sentaram número de microrganismos expresso em CCU
(color changing units) por mililitro, maior do que 104, e
47,06% das amostras analisadas apresentaram número de
microrganismos menor que 104CCU/mL. Das amostras que
apresentaram resultado positivo para ureaplasma, analisa-
das pelo método próprio, 42,86% apresentaram o número
de microrganismos maior que 103CCU/mL e 57,14% das
amostras analisadas apresentaram o número de microrga-
nismos menor que 103CCU/mL (figura 3).
Comparando as amostras positivas para U. urealyticum,
34,53% apresentaram resultado positivo pelo método pró-
prio e negativo pelo método comercial, dentre estas 51,73%
apresentaram um resultado quantitativo maior que 103
CCU/mL. Fazendo a mesma comparação com amostras po-
sitivas para M. hominis, 14% das amostras analisadas apre-
sentaram resultado positivo pelo método próprio e negativo
pelo método comercial, sendo que destas 54,55% apresen-
taram resultado quantitativo maior do que 104CCU/mL.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
De acordo com os resultados obtidos, observamos que as
amostras analisadas pelo método próprio obtiveram resul-
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Figura 1 – Colônias de Ureaplasma urealyticum
Mycoplasma hominis (direita) isoladas de amostras de conteúdo
vaginal em meio sólido A7, observadas ao microscópio ótico em
aumento de 400 x.
(esquerda) e
Figura 2 – Representação gráfica da comparação da positividade
da cultura para Mycoplasma hominis e Ureaplasma sp. com o
método comercial e com o método próprio.
Figura 3 - Representação gráfica do número de microrganismos
presentes na cultura para Mycoplasma hominis e Ureaplasma sp.
pelo método próprio, maior ou igual que 104 CCU/mL (>) ou menor
que 104 CCU/mL (<) para M. hominis, e maior ou igual que 103
CCU/mL (>) ou menor que 103 CCU/mL (<) para Ureaplasma sp.
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tados positivos para ambos microrganismos referidos, su-
periores aos das amostras analisadas pelo método comerci-
al, indicando maior eficiência do método próprio. Estes re-
sultados são estatisticamente significativos (P< 0,0001).
Uma das explicações para estes resultados poderia ser a di-
ficuldade técnica da produção dos meios de cultura, como
por exemplo, uso de quantidade insuficiente de certos
componentes, conservação inadequada das matérias pri-
mas utilizadas na produção ou, mesmo, controle da quali-
dade ineficaz das matérias primas e/ou do meio de cultura
após a produção.
Os micoplasmas e ureaplasmas necessitam de extrato de le-
vedura fresco para o crescimento, pois precisam de precur-
sores de ácidos nucleicos, proteínas e lipídios, e compostos
altamente instáveis como NAD e FAD, sendo incapazes de
produzi-los. O soro de cavalo utilizado também é um fator
que pode causar interferência na qualidade do meio, e de-
ve ser testado em culturas de células para a detecção de
eventuais inibidores de crescimento dos microrganismos,
como, por exemplo, anticorpos (10). Os molicutes são muito
sensíveis a inibidores presentes em determinados lotes de
soro de cavalo, no extrato de levedura e no próprio meio ba-
se (14), o que poderia justificar o não crescimento destes mi-
crorganismos através do método comercial.
Entretanto, vale ressaltar que, em virtude do alto custo da
aquisição dos meios comerciais, já prontos para uso, o la-
boratório que realizava as culturas testadas no presente es-
tudo utilizava, empiricamente, a metade do meio liquido
preconizado pelo fabricante para cada cultura (1 mL dos 2
mL recomendados).
De acordo com os resultados obtidos neste trabalho, a inci-
dência de U. Urealyticum foi de importante significado clí-
nico, pois 50% das amostras analisadas pelo método pró-
prio apresentaram resultado positivo. Este resultado é se-
melhante aos de outros estudos realizados com as mesmas
características, que gira em torno de 60% de mulheres por-
tadoras deste microrganismo. Além disso, 52,94% das
amostras analisadas apresentaram resultado superior a 103
CCU/mL, o que é considerado infecção significativa.
A incidência de M. hominis foi de 20,24% do total das amos-
tras analisadas, o que foi semelhante a de outros estudos, on-
de esta incidência gira em torno de 30%. Além disto, 52,54%
das amostras que apresentaram resultado positivo pelo mé-
todo próprio para este microrganismo demonstraram resulta-
do superior a 104CCU/mL, o que pode ser considerado como
infecção clinicamente significativa por M. hominis.
Como se pode notar, o desempenho de diferentes métodos
pode influir significativamente na taxa de isolamento dos mi-
coplasmas, patógenos de importância clinica indiscutível atu-
almente. Cerca de metade das pacientes que procuraram o la-
boratório privado para a realização de cultura para micoplas-
mas tinham níveis de infecção clinicamente significativos.
Eventualmente, na tentativa de diminuir os custos, alguns
laboratórios podem implantar modificações empíricas nas
técnicas, que podem até apresentar certa lógica. Entretan-
to, este estudo comprova que tais modificações devem ser
testadas de maneira adequada, em comparação com pro-
cedimentos estabelecidos. Procedimentos não padroniza-
dos podem prejudicar sobremaneira a qualidade da cultu-
ra para micoplasmas, especialmente os testes quantitati-
vos, que o referido laboratório não realiza em função do
custo dos meios comerciais. Em comunicação posterior, o
laboratório informou que havia aumentado o volume de
amostra e meio de cultura utilizado, de acordo com as ori-
entações do fabricante, e que taxa de isolamento de mico-
plasmas, anteriormente em nível bastante baixo, aparente-
mente tinha apresentado um aumento perceptível.
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________________________________________
ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA:
Prof. Dr. Caio M. M. de Cordova
FURB, Departamento de Ciências Farmacêuticas
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153 RBAC, vol. 40(2): 151-153, 2008
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Available from Caio M. M. Cordova · 24 Jan 2013
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