A filosofia de Michel Foucault e sua apropriação pela disciplina Arquivística contemporânea.
ABSTRACT Identification and analysis of the use of the work of French philosopher Michel Foucault (1926-1984) by the Archival Science discipline, trying to visualize the influence of the author to this area. Initially there will be made an analysis showing the main features related to the chain called post-structuralism, where Foucault's work is commonly classified. Subsequently, it will be discussed the analysis of the French philosopher, in specific works, about his approach to concepts relating to archives and archival documents. Lastly will be made a brief survey of Brazilian and foreign authors related to archival and documentation disciplines, that cited or discussed Foucault's ideas in their intellectual production. It is concluded, preliminarily, that the analysis carried out in much of the archival literature raised indicates a superficial analysis of Foucault ideas, but allowing new research that may, in different ways, enrich the discipline epistemologically.
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A FILOSOFIA DE MICHEL FOUCAULT E SUA APROPRIAÇÃO PELA DISCIPLINA
ARQUIVÍSTICA CONTEMPORÂNEA
Roberto Lopes dos Santos Júnior (IBICT/UFRJ)1
Aluf Alba Elias (IBICT/UFRJ)2
Resumo: Análise e identificação da utilização da obra do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984)
pela disciplina arquivística, tentando visualizar qual a influencia do autor para a área. Inicialmente será
feita uma analise apresentando as principais características relacionadas à corrente filosófica denominada
de Pós-estruturalismo, onde o trabalho de Foucault comumente é classificado. Posteriormente, será
discutida a análise do filósofo francês, em obras localizadas, sobre sua abordagem em relação a conceitos
referentes a arquivos e documentos de arquivos. Por último será feito um breve levantamento de autores,
nacionais e estrangeiros, ligados à arquivologia e documentação, que citaram ou discutiram idéias de
Foucault em sua produção intelectual. Conclui-se, de forma preliminar, que as análises feitas em boa parte
da bibliografia arquivistica levantada, indica uma abordagem ainda superficial ou muito específica das
idéias de Foucault, mas que permite a realização de novas pesquisas que poderão, de diferentes formas,
enriquecer epistemologicamente a disciplina.
Palavras-chave: Michel Foucault; Pós-estruturalismo; Analise do discurso; Arquivística.
Abstract: Identification and analysis of the use of the work of French philosopher Michel Foucault (1926-
1984) by the Archival Science discipline, trying to visualize the influence of the author to this area.
Initially there will be made an analysis showing the main features related to the chain called post-
structuralism, where Foucault's work is commonly classified. Subsequently, it will be discussed the
analysis of the French philosopher, in specific works, about his approach to concepts relating to archives
and archival documents. Lastly will be made a brief survey of Brazilian and foreign authors related to
archival and documentation disciplines, that cited or discussed Foucault's ideas in their intellectual
production. It is concluded, preliminarily, that the analysis carried out in much of the archival literature
raised indicates a superficial analysis of Foucault ideas, but allowing new research that may, in different
ways, enrich the discipline epistemologically.
Keywords: Michel Foucault; Post-structuralism; Discourse analysis; Archive Science.
1 Roberto Lopes dos Santos Júnior (bobblopes@hotmail.com), Arquivista. Doutorando em Ciência da Informação
IBICT/UFRJ.
2 Aluf Alba Elias (alufelias@gmail.com), Arquivista. Mestranda em Ciência da Informação IBICT/UFRJ.
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1 INTRODUÇÃO
Ainda que pouco explorada, de forma localizada, pelos pesquisadores da disciplina
Arquivística, é possível notar uma relação consideravelmente próxima e significativa entre a
Arquivologia e a Filosofia Contemporânea. Mesmo observando um relativo afastamento entre as
áreas, decorrente da baixa incidência de pesquisas que objetivem analisar seus inter-
relacionamentos teóricos e práticos, encontraremos influentes autores- que dedicaram seus
estudos à filosofia e à análise dos constitutivos sociais- que ocasionalmente citaram ou
analisaram a questão do arquivo em parte de sua obra.
Tal exemplo pode ser melhor visualizado na corrente filosófica denominada Pós-
Estruturalismo3, em atividade entre o final da década de 1960 até meados dos anos 1990, tendo
como seus principais representantes os filósofos Jacques Derrida (1930-2004), Giles Deleuze
(1925-1995) e Michel Foucault (1926-1984), entre outros. Esses três autores, em determinados
momentos de sua produção intelectual - exemplificando, O Mal de Arquivo, Papel Máquina
(DERRIDA [1995] 2001; 2004), O mistério de Ariana. (DELEUZE, [1988] 1996), Arqueologia
do Saber e Vigiar e Punir, (FOUCAULT [1969] 2007; [1975]1999) - discutiram criticamente a
questão do conceito “arquivo” e / ou assuntos ligados a sua função, produção, acumulação,
estrutura ou utilização.
No que tange a Arquivística, entretanto, apesar das obras de Deleuze e Derrida serem
citadas ocasionalmente por autores da área, são as idéias de Foucault, com considerável folga, as
mais discutidas dentro da Arquivologia. Sua abordagem sobre o arquivo, como, por exemplo,
sugerindo-o como dispositivo de afirmação/construção dos saberes, relativizando a questão do
documento (de arquivo), causou considerável impacto para a disciplina Arquivística.
O presente ensaio busca iniciar uma breve reflexão acerca da abordagem foucaultiana
sobre o conceito Arquivo e, numa segunda proposta, se coloca a observar como o campo
3 O Pós-estruturalismo instaura uma teoria da desconstrução na análise literária, liberando o texto para uma
pluralidade de sentidos. A realidade é considerada como uma construção social e subjetiva. A abordagem é mais
aberta no que diz respeito à diversidade de métodos. Em contraste com o estruturalismo, que afirma a independência
e superioridade do significante em relação ao significado, os pós-estruturalistas vêem o significante e o significado
como inseparáveis. (PETERS, Michael. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Belo Horizonte. Ed.
Autêntica. 2000. 96 p. )
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arquivístico se apropriou e configurou as idéias e propostas de Foucault, para, a partir daí,
identificar a influência foucaultiana nos estudos arquivísticos e do documento.
Inicialmente, será feita uma breve abordagem sobre a corrente ligada ao pós-
estruturalismo, identificando de forma resumida as análises feitas por essa corrente de
pensamento sobre os conceitos informação e documento. Posteriormente, será discutida a
perspectiva de Michel Foucault, em partes localizadas de sua obra, referente aos arquivos e
documento. Por fim, será discutida a apropriação de autores ligados à arquivística, ou a áreas
correlatas, das idéias foucaultianas em sua produção bibliográfica. Nessa parte, devido ao escopo
diversificado do tema estudado, foram realizados levantamentos em periódicos internacionais da
área de arquivologia como Archivaria, Archival Science e American Archivist e em publicações
nacionais focadas.
2 BREVE ANÁLISE DA RELAÇÃO ENTRE O PÓS-ESTRUTURALISMO E A CIÊNCIA
DA INFORMAÇÃO
Ronald Day, em um artigo escrito para o Annual Review of Information Science and
Technology, publicado em 2005, fez uma resumida e concisa análise sobre a relação entre os
conceitos da filosofia pós-estruturalista com a Ciência da Informação. Para o autor, a relação
entre as disciplinas é problemática, mas ao mesmo tempo “intrigante”.
Uma primeira característica ressaltada no artigo é a metodologia relacionada a “analise do
discurso”, diretamente ligada às idéias de Foucault, que aparece sendo uma das mais fortes
relações entre esse campo filosófico e os estudos ligados a informação4. Contudo, Day ressalta,
que, apesar de se apresentar como uma metodologia, a análise do discurso seria melhor entendida
como um conjunto de fatos ou de propostas em busca de aperfeiçoamento.
Outra característica apresentada nessa pesquisa é a forte atenção dada pelos autores dessa
corrente a aspectos semânticos e lingüísticos da disseminação e produção do conhecimento,
relacionados aos “jogos de linguagem” do filósofo Wittgenstein- ou da identidade que é
4 Esse aspecto pode ser parcialmente verificado em obras especificas de autores como John Buschman (2010), Bernd
Frohmann e Lidia Freitas (2010), que discutem ou utilizam características dessa metodologia em seus estudos e
pesquisas.
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constituída pelos jogos de diferença5, também influenciados pelo filósofo austríaco- e de idéias
de teóricos da escola de Frankfurt (na chamada “primeira geração”) Martin Heidegger e Walter
Benjamin.
Ao focar sua análise sobre a utilização da Ciência da Informação sobre as idéias dessa
corrente, o autor aproveita para realizar algumas críticas, como, por exemplo, sobre a forma
epistêmica ou ontológica da noção de Ciência da Informação, que é muitas vezes auto-referente
(ou auto-afetiva) mostrando ser um efeito sociocultural de contextos muito vagos ou gerais
(“informação”, “dados”, “fatos” etc.). A reabertura da linguagem para outra coisa que não
significa auto-referência ou dados e, da mesma forma, do conhecimento como algo diferente de
certos conteúdos mentais, e a interpretação da informação como algo diferente da representação,
fato ou crença verdadeira, constituem um desafio para a área na realização eficiente de diferentes
pressupostos epistemológicos.
Nesse sentido, ainda segundo esse trabalho, as teorias de estudos de informação têm se
apresentado como uma empresa positivista se enquadrando dentro da tradição metafísica
ocidental dos atos de linguagem, substituindo uma pragmática variável com modelos idealistas.
Por fim, o autor afirma que o Pós-estruturalismo, em relação aos estudos da informação,
tem como um de seus objetivos principais destruir esses “pressupostos metafísicos do
positivismo”.
3 A FILOSOFIA DE MICHEL FOUCAULT E A QUESTÃO DO ARQUIVO: ANÁLISE E
PRIMEIRAS “APROXIMAÇÕES” COM A ARQUIVOLOGIA
Ao considerarmos a filosofia de Michel Foucault e sua intensa reflexão sobre a questão do
poder e seus instrumentos (aparelhos, dispositivos e discurso) nos diversos contextos sociais, se
torna evidente e análoga a questão da constituição e acumulação de acervos documentais
orgânicos, ou seja, Arquivos, numa perspectiva de assegurar a materialidade de um discurso e na
constituição de um poder.
5 Segundo Day, a partir da utilização desses jogos de diferença, a identidade e o valor na linguagem não seriam
estabelecidos por uma relação de correspondência ou representação entre o significante e significado, mas sim por
um sistema de diferenças;
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Uma das primeiras análises feitas pelo filósofo francês sobre a construção e função dos
arquivos e documentos foi no livro Arqueologia do Saber, publicado originalmente em 1969.
Destaca-se, nesse trabalho, uma parte onde o autor dedica-se ao estudo da utilização e
propriedade do arquivo, segundo sua visão teórica e a partir de metodologias de pesquisa
utilizadas em obras anteriores.
Nesse trabalho, o autor para chegar às definições sobre o arquivo, apresenta uma
construção que inicialmente baseia-se na construção do signo e da palavra e a partir dessa análise
gradativa, vai identificando as funções, construções e utilizações do arquivo e do documento de
arquivo6.
Sua abordagem sobre o arquivo, quando ainda se dedica à construção dos saberes, o
sugere como dispositivo de afirmação/construção desses saberes, relativizando a questão do
documento (de arquivo) como um “monumento” repleto de intenções futuristas. O autor
apresenta o documento (de arquivo) sendo um instrumento historicizado, portanto, negando a sua
idéia forjada de legado verdadeiro do passado e afirmando o papel do historiador em transformá-
lo, oferecendo-lhe uma elaboração, um estatuto. A partir desta perspectiva o Arquivo perde sua
“pureza” e imutabilidade e passa se tornar algo maleável, que se transforma conforme a
manipulação (FOUCAULT, [1969] 2007).
Foucault resume sua definição de arquivo em uma (influente) passagem dessa obra
O arquivo é, de início, aquilo que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos
enunciados como acontecimentos singulares. Mas o arquivo é , também, o que faz com
que todas as coisas ditas não se acumulem indefinidamente em uma massa amorfa, não se
inscrevam, tampouco, em uma linearidade sem rupturas e não desapareçam ao simples
acaso dos acidentes externos, mas que se agrupem em figuras distintas, se componham
umas com as outras segundo relações múltiplas, se mantenham ou se esfumem segundo
regularidades específicas (...). (Foucault, p. 147, [1969] 2007) .
Essa concepção Foucaultiana sobre arquivo pode servir de um interessante contraponto a
definição comumente apresentada pela disciplina arquivistica a esse conceito como, por exemplo,
nessa definição apresentada por um influente autor da área.
(...) conjunto das informações, qualquer que seja a sua data, natureza ou suporte,
organicamente reunidas por uma pessoa física ou moral, pública ou privada, para as
6 Segundo Frohmann (2000) essa construção poderia ser nomeada como “materialização” do documento pelo
filosofo francês.
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necessidades da sua existência e o exercício das suas funções, conservadas antes de mais
pelo seu valor primário, isto é, administrativo, legal, financeiro ou probatório e,
posteriormente conservadas pelo seu valor secundário, isto é, de testemunho ou, mais
simplesmente, de informação geral. (Rousseau, 1991, p.2)
Ainda tomando como princípio a perspectiva foucaultiana, torna-se possível discorrer
sobre a idéia de apresentada em Rousseau e Couture (1998), que o homem, em seu contexto
individual ou coletivo, tem uma necessidade insaciável de informação. As razões de sua busca
infindável apresentam facetas múltiplas cujas origens se desdobram no seu desejo contínuo pelo
absoluto, pela liberdade, pela comunicação, de forma a minimizar as fronteiras do conhecimento
facilitando, em todos os níveis, o exercício do poder.
A busca humana pela informação7 está ligada diretamente à ânsia por sabedoria, que
sugere uma espécie de perfeição intelectual. Como a presença de sabedoria numa pessoa implica
numa dependência em relação ao conhecimento e, num outro grau, à informação, fica fácil
conceber o fascínio humano diante desse paradigma (Rousseau e Couture, 1998).
Em tempos cuja informação era transmitida oralmente, esta constituía um bem raro, tão
incerto e mesmo impreciso; afinal, a memória (seu principal dispositivo até então) esquece,
seleciona e distorce. Fica claro que a humanidade ao dispor da informação documentada, isto é, a
informação que é registrada materialmente em um suporte através de códigos pré-definidos e sob
a “guarda” do arquivo, iniciou uma grande transformação no seu modo de vida através da nova
forma de utilizá-la. Como salientam os autores, tornou-se possível registrar, copiar, autenticar,
transmitir, comprar, receber, difundir, classificar, recuperar, armazenar, conservar e, finalmente,
utilizar a informação de uma forma relativamente fácil, estável e exata (ibidem, grifo nosso).
Apesar de ocasionalmente Foucault recorrer ao tema do arquivo e documento em textos
posteriores, a discussão sobre esses conceitos em sua obra voltaria a ser analisada, de forma
diferenciada e com outros vieses e direções, na obra vigiar e punir, publicado originalmente em
1975. Nesse trabalho, a análise do arquivo aparece, em seu conjunto, especificamente relacionado
aos documentos de instituições prisionais, onde são discutidas a estrutura e a forma em que esses
conjuntos documentais são utilizados pela sociedade ou pelos órgãos de poder.
7 Informação, em uma classificação “clássica”, é “(...)o nome dado ao conteúdo que é trocado com o mundo do
exterior quando nos ajustamos a ele e nele fazemos sentir o nosso ajustamento. Assim, viver de fato, é viver com e
através informação” (WIENER apud McGARRY, 1984).
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4 IDENTIFICANDO FOUCAULT NA BIBLIOGRAFIA ARQUIVÍSTICA E CO-
RELATA (DOCUMENTAÇÃO)
4.1 Autores nacionais
A literatura arquivística brasileira, conforme citado na introdução do artigo, costuma citar
as idéias foucaultianas com certa regularidade. Entretanto, através de uma análise um pouco mais
atenta dessa bibliografia, percebe-se que as idéias de “arquivo” ou de “funções de arquivo”
propostas pelo filósofo francês são mais citadas do que necessariamente estudadas com
profundidade pelos arquivistas ou pesquisadores que se dedicam com os arquivos e a
arquivologia.
Por um lado, existem autores que apenas fazem menção a sua obra ou a idéias esparsas
apresentadas em pontos específicos de sua literatura (por exemplo, em Jardim, 1995, p.23; 1999,
p.97; Fonseca, 2005, p. 34-35), ligadas a aspectos epistemológicos. Ainda nessa característica,
outros pesquisadores, que também fazem uma breve citação, buscaram utilizar conceitos mais
específicos do filósofo francês em relação à função ou definição de arquivo. Isso é visto, por
exemplo, em Heymann (2008, p.3-4) e Duarte (2007, p.143-144), que citam a classificação dada
por Foucault aos arquivos no livro Arqueologia do saber, especificamente nas idéias da relação
entre saber e poder, onde as afirmações de poder se atualizam ou ficam evidenciadas quando é
estabelecido, direta ou indiretamente, o que é “interdito” ou o que é permitido.
Em relação a autores que utilizaram de forma um pouco mais aprofundada as abordagens
de Foucault, cita-se a comunicação de Marques e Rodrigues (2010), que ao estudarem os
referenciais teóricos da interlocução da Arquivologia nacional e internacional, separaram, entre
outros conceitos, um chamado de “campo dos acontecimentos discursivos” onde são analisados
aspectos de circulação e constituição dos discursos a partir da (já citada) correlação entre saber e
poder apresentada por Foucault na (também já citada) obra arqueologia do saber.
Barros (2010, cap.4) também utiliza parcialmente as idéias foucaltianas, a partir do
desenvolvimento de uma “análise do discurso” que permita, segundo o autor, contribuir para o
crescimento da disciplina arquivística, e entender os discursos mais influentes na área.
A pesquisa de Silva e Romão (2011) realizou uma interessante e complexa, mesmo que
um pouco abstrata em algumas passagens, análise buscando relacionar conceitos arquivísticos
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com idéias referentes à análise do discurso, estudando e destrinchando o papel dos arquivos e do
“arquivista” existentes no filme Brazil (1985), dirigido por Terry Guilliam. Em relação às idéias
de Foucault, os autores indicam a definição ou visão do filósofo francês para os arquivos, ou seja,
a de não possuir o peso da tradição ou de se tornarem obsoletos com o aparecimento de novas
palavras (informações), beneficiando a prática arquivística que “(...) permite aos enunciados tanto
subsistirem quanto se modificarem, num sistema que forma e transforma enunciados. A análise e
descrição do arquivo deve ser vista tendo em conta sua alteridade, com o exterior da nossa
linguagem ali presente (Foucault apud Silva e Romão 2011)”. Para os autores, essas
transformações e modificações no enunciado e a multiplicidade de leituras possíveis, permite a
aproximação da noção foucaultiana de arquivo com a análise do discurso, afastando a
interpretação unívoca que a arquivistica muitas vezes busca realizar com a noção de “discurso”.
4.2 Autores internacionais
Em relação à produção internacional arquívistica que cita ou analisa as idéias de Foucault,
destaca-se a cena canadense, que apresentou um número considerável de pesquisadores que, em
diferentes graus, estudaram aspectos da obra do filósofo francês em seus trabalhos8.
Desses autores, destaca-se Terry Cook, que, entre o final dos anos 1990 e início dos anos
2000, produziu influentes trabalhos buscando novos paradigmas “pós-modernos” para a
arquivistica, buscando incluir correntes filosóficas ou questões éticas, políticas, sociais e (em
menor medida) teóricas e epistemológicas para a discussão da disciplina, do seu profissional e do
seu objeto de estudo.
As análises de Foucault na obra de Cook variavam. Por um lado, são percebidas breves
citações (por exemplo, em Cook, 1997; 2001) que buscam identificar, entre várias correntes
filosóficas, autores que poderiam ser relacionados aos arquivos e, no caso de Foucault, teriam a
oferecer conceitos mais “críticos” acerca do papel do arquivista ou da construção dos arquivos.
Análises (um pouco) mais aprofundadas sobre a utilização de idéias foucaultianas na
arquivologia aparecem em um trabalho que discute a relação entre arquivos, documentos e poder
(Schwartz, Cook, 2002). Nesse artigo, os autores enfatizam a definição de Foucault (reutilizada
8 Podem ser citados autores Verne Harris, Brien Brothman e Bernadette Dodge, que em seus estudos, utilizaram de
forma localizada a obra de Foucault em alguns de seus trabalhos.
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por Derrida) do papel dos arquivos como “um construto metafórico onde expõem perspectivas do
conhecimento humano, memória, poder e uma questão de justiça” (Schwartz, Cook, 2002, p.4)
revisando autores que utilizaram, indiretamente, questões de “microfisica do poder”, do controle
e o acesso a utilização dos documentos em diferentes suportes e conteúdos.
Outro trabalho que merece citação é de Katelaar (2002), onde foi encontrado uma das
poucas utilizações das idéias da função e papel dos documentos e arquivos feitas pelo autor no
livro vigiar e punir, aonde chega a ser citado e discutido o conceito de panópitco9, do qual
Foucault se apropria em parte deste trabalho.
Carter (2002) fez utilização de Foucault em um interessante tema que relaciona o arquivo
não só ao poder, mas ao silêncio que às vezes podem ser sentidos nesses documentos ou nas
informações não utilizadas, acessadas ou divulgadas neles.
Em relação à análise ligada à documentação, o (já citado) autor canadense Bernd
Frohmann foi um dos que mais abordou, de forma quantitativa e aprofundada, a relação entre
Foucault e o papel dos documentos ou conjuntos documentais. Além da qualidade de seu trabalho
sobre o autor, outra vantagem do estudo de Frohmann é a inclusão de outras características da
filosofia foucaultiana que podem ser incluídas no estudo do documento além das apresentadas
em Arqueologia do saber e Vigiar e Punir.
Entre diferentes trabalhos, o que pode ser considerado o principal ou com a abordagem
mais aprofundada é o artigo o com o sugestivo título Discourse and Documentation (2000).
Nessa pesquisa, é feito inicialmente uma análise sobre o conceito de documentação oferecido
pelo documentalista belga Paul Otlet, partindo do estudo da visão micro (ligado a Arqueologia do
Saber e da materialização do documento) e macro (relacionado à obra Vigiar e Punir- e da função
do documento) de Foucault e, por fim, busca utilizar ambas as abordagens tentando utilizar uma
junção entre a documentação e a análise do discurso.
Sobre análises de outras idéias feitas por Foucault, não necessariamente relacionadas ao
documento, pode ser citada a proposta feita por Frohmann (2009) de buscar uma “biopolítica
documental”, utilizando conceitos feitos por diferentes autores, mas baseando-se
9 Tipo de prisão circular formulado pelo jurista inglês Jeremy Bentham (1748-1832) em 1785, onde haveria em sua
estrutura a possibilidade de vigilância de todos os prisoneiros ali residentes, sem que eles pudessem saber do fato.
Foucault utilizaria esse conceito para exemplificar ou mateforizar um sistema de disciplina, controle e poder
existente na sociedade contemporânea.
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fundamentalmente na concepção de biopoder, na acepção apresentada por Foucault10, para
arquivos ou documentos relacionados a diferentes tipos de minorias (gays, negros, etc.).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente ensaio buscou, de forma preliminar, estudar a análise de Michel Foucault em
relação ao documento e aos arquivos e identificar abordagens ou utilizações de autores da
disciplina arquivistica e de áreas co-relatas sobre sua obra.
Percebe-se que, no geral, as análises feitas por autores da arquivologia ficam centralizadas
em obras especificas de Foucault, principalmente no livro arqueologia do saber e, em menor
medida, em vigiar e punir.
Em relação à bibliografia arquivistica nacional, apesar de algumas exceções, os estudos
mostraram-se ou superficiais ou focados na relação verdade e poder ou de definição do conceito
arquivo no Arqueologia do Saber, sem maiores aprofundamentos ou (tentativas de) inter-relação
de suas idéias com a Arquivologia.
Entretanto, apesar dessa “superficialidade” percebida por alguns autores brasileiros ao
apresentarem algumas idéias de Foucault, percebe-se que o tema, pela complexidade da obra de
filósofo francês e também de sua visão diferenciada sobre o objeto arquivo, permite novos
desdobramentos e análises que podem ser realizados pelo campo arquivístico nacional.
Internacionalmente, em especial na já citada cena canadense, foi encontrada uma visão
um pouco mais ampla, porém, alguns conceitos, como, por exemplo, a questão de dispositivo, por
vezes ficam um tanto obscuros nessas abordagens, apesar de que tanto o aspecto da materialidade
quanto da relação saber e poder ser estudados por grande parte dos autores estrangeiros
levantados, sejam ligados à arquivologia ou a áreas co-relatas.
De uma forma irônica percebemos que se o ensaio respondeu parcialmente algumas
questões, outras, de maneira inevitável, surgem (ou se consolidam) no horizonte: Será que
arquivistica poderia utilizar a obra de Michel Foucault para seu aperfeiçoamento teórico e
epistemológico? Caso a resposta seja afirmativa como poderia ser feita essa apropriação? As
10 O conceito de Biopoder, segundo a definição original de Foucault, baseia-se ao controle dos corpos e da vida
exercidos pelo estado contemporâneo por meio de leis e normas aplicadas pela pedagogia, medicina e economia, que
regulariam a sexualidade e o modo de vida da sociedade. Essas idéias podem ser encontras na trilogia História da
Sexualidade, sendo o primeiro volume publicado em 1976 e os dois últimos em 1984.
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exceções apresentadas no decorrer do trabalho, de discussões mais aprofundadas, podem de
alguma forma servir de base para esse aperfeiçoamento? São perguntas interessantes, e até
mesmo necessárias para a disciplina arquivistica, mas que só novas (e extensivas) pesquisas
poderão oferecer respostas mais satisfatórias para elas.
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