Dilemas do Humano: Reinventando o corpo numa era (bio)tecnologica
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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
MARKO SYNÉSIO ALVES MONTEIRO
Os dilemas do humano: reinventando o corpo numa era (bio)tecnológica
Tese de Doutorado em Ciências
Sociais apresentada
Departamento de Sociologia do
Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da
Estadual de Campinas,
orientação do Prof. Dr. Laymert
Garcia dos Santos.
ao
Universidade
sob
Este exemplar corresponde à versão
final da tese defendida e aprovada pela
Comissão Julgadora em 29/06/2005.
Banca Examinadora:
Prof. Dr. Laymert Garcia dos Santos (orientador)
Profa. Dra. Suely Kofes
Prof. Dr. Júlio Assis Simões
Profa. Dra. Denise Sant’anna
Profa. Dra. Adriana Piscitelli
Junho de 2005
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FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP
Monteiro, Marko Synésio Alves
M 764d Os dilemas do humano: reinventado o corpo numa era (bio)
tecnológica / Marko Synésio Alves Monteiro. - - Campinas, SP:
[ [s.n.], 2005.
Orientador: Laymert Garcia dos Santos.
Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
1. Genomas - Aspectos morais e éticos. 2. Câncer - Aspectos
sociais. 3. Etnologia. 4. Corpo - Aspectos sociais. 5. Biologia -
Aspectos sociais. 6. Genética. 7. Genomas. I. Santos, Laymert
G. dos (Laymert Garcia dos), 1948- II. Universidade Estadual de
Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
(Sfm/ifch)
Palavras-chave em inglês (Keywords): Genomes – Moral and ethical aspects
Cancer – Social aspects
Ethnology
Body – Social aspects
Biology
Genetics
Genomes
Área de concentração: Ciências Sociais.
Titulação: Doutor em Ciências Sociais.
Banca examinadora: Laymert Garcia dos Santos
Suely Kofes
Júlio Assis Simões
Denise Sant’anna
Adriana Piscitelli
Data da defesa: 29 de junho de 2005
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RESUMO
A tese tem por objetivo debater as mudanças atualmente em curso nas concepções
modernas do corpo, a partir do impacto das novas tecnologias associadas à genética. Tais
concepções, calcadas fortemente na dualidade cartesiana, estariam sendo modificadas pela
possibilidade, cada vez mais real, de manipulação da natureza em seu nível molecular. As
conseqüências teóricas de transformar o corpo, junto com a própria prática cientifica, em
objetos de análise social, são debatidos. Um estudo de caso, a partir de pesquisa de campo
feita em laboratórios de bioinformática na Universidade de São Paulo e no Instituto Ludwig
de Pesquisa com Câncer/Hospital do Câncer, fundamenta empiricamente a discussão. Os
microarrays, utilizados em pesquisas que buscam estabelecer biomarcadores para câncer de
próstata, são analisados como objetos que encarnam as novas visões do corpo, num
contexto marcado pelo avanço da biotecnologia. A tese debate também alguns aspectos
políticos que se mostram relevantes na compreensão desse avanço tecnológico, como os
temores de um ressurgimento da eugenia. Ao final, debatem-se alternativas analíticas e
políticas para a compreensão do novo estatuto do corpo e da matéria viva, a partir de pistas
dadas por artistas, engajados com a expressão artística através do corpo e da tecnologia, e
através de teóricos que buscam repensar as bases nas quais assenta-se a biologia e a
pesquisa científica contemporâneas.
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ABSTRACT
This thesis analyzes transformations in contemporary conceptions of the body under
the light of changes brought on by new technologies associated with genetics. These
conceptions, strongly marked by a cartesian opposition between mind/matter, are being
shifted in the context of the growing possibilities of the manipulation nature in its
molecular level through technology. The theoretical consequences of turning the body, as
well as the scientific practice of manipulating it, as an object for the Social Sciences, are
also debated. A case study, originated from field research with done in bioinformatics
laboratories at the Universidade de São Paulo (USP) and the Ludwig Center for Cancer
Research/Cancer Hospital, provides the empirical basis of the argument. Microarrays, used
in the research being developed in the laboratories cited above in research towards the
development of molecular markers for prostate cancer, are analyzed as objects that embody
the new conceptions of the body that arise in a context of rapid advance in biotechnology.
The thesis debates also some political aspects that are relevant for a deeper understanding
of these technological developments, such as the fears surrounding a return of eugenic
practices. In the conclusion some analytical and political alternatives are discussed, as a
means of pursuing a richer criticism of the new statute of the body and of living matter,
using the example of artists that use the body and technology as medium of artistic
expression; also through a debate of theorists that are busy rethinking the bases of
contemporary biology and of current scientific practices.
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Estranhamente, o homem – cujo conhecimento passa, a olhos ingênuos, como a mais velha busca desde Sócrates – não é, sem
dúvida, nada mais que uma certa brecha na ordem das coisas, uma configuração, em todo caso, desenhada pela disposição
nova que ele assumiu recentemente no saber. Daí nasceram todas as quimeras dos novos humanismos, todas as facilidades de
uma "antropologia", entendida como reflexão geral, meio positiva, meio filosófica, sobre o homem. Contudo, é um reconforto
e um profundo apaziguamento pensar que o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos,
uma simples dobra de nosso saber, e que desaparecerá desde que este houver encontrado uma forma nova. (Foucault, 1999:xx-
xxi)
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Índice analítico
AGRADECIMENTOS..................................................................................................................................... 9
INTRODUÇÃO:............................................................................................................................................. 11
1 - UM ESTUDO DE CASO: BIOMARCADORES DE CÂNCER DE PRÓSTATA.............................. 21
A pesquisa entre a biologia e a bioinformática...................................................................................... 28
Corpo analógico, corpo digital: do teste Gleason para os microarrays................................................ 34
2 - A SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS EPISTEMOLÓGICAS................... 44
3 - O CORPO NA TEORIA SOCIAL .......................................................................................................... 58
Habitus e incorporação.......................................................................................................................... 61
Foucault e o corpo no feminismo............................................................................................................ 66
Reflexividade do corpo e cultura de consumo ........................................................................................ 73
4 – O CORPO NO MECANICISMO ........................................................................................................... 77
A ruptura cartesiana e o advento do corpo-máquina............................................................................. 83
Francis Bacon e a ciência experimental................................................................................................. 93
Do moderno ao contemporâneo.............................................................................................................. 95
5 - A GENÉTICA COMO NOVO DOGMA DA BIOLOGIA: UMA NATUREZA PÓS
MECANICISTA?......................................................................................................................................... 100
O corpo informação.............................................................................................................................. 103
Uma natureza pós-mecanicista?........................................................................................................... 111
Opondo natureza e cultura ................................................................................................................... 115
A biotecnologia como prática social de reorganização da natureza.................................................... 119
6 - MANIPULANDO O CORPO, POLITIZANDO A VIDA................................................................... 124
O olhar médico e o eugênico: práticas de experimentação do humano............................................... 133
Controle e manipulação da natureza como nova epistémê................................................................... 139
Construindo o pós-humano?................................................................................................................. 145
7 - A ARTE COMO REINVENÇÃO DO CORPO: EXPLORANDO PRÁTICAS REFLEXIVAS DA
MATÉRIA..................................................................................................................................................... 150
Cibernética, informação e imaterialidade............................................................................................ 156
Práticas reflexivas da matéria.............................................................................................................. 162
8 – CONCLUSÃO: OS DILEMAS DO HUMANO................................................................................... 178
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:...................................................................................................... 187
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Índice de Figuras
FIGURA 1: ESQUEMA DA CONSTRUÇÃO DO MICROARRAY(RETIRADO DE DUGGAN ET AL., 1999)........................ 37
FIGURA 2: DESENHO SIMPLIFICADO DAS 5 NOTAS DE GLEASON [RETIRADO DE
HTTP://WWW.PHOENIX5.ORG/INFOLINK/GLEASONGRADING.HTM#INTRO]. ............................................. 40
FIGURA 3: OS ÓRGÃOS PRINCIPAIS E SISTEMAS VASCULAR E URINO-GENITAL DE UMA MULHER (C. 1507), DESENHO
DE LEONARDO DA VINCI.......................................................................................................................... 81
FIGURA 4: O HOMEM DE VITRÚVIO, DESENHO DE LEONARDO DA VINCI............................................................. 82
FIGURA 5: A LIÇÃO DE ANATOMIA DO DR. TULP(REMBRANDT, 1632) ................................................................ 84
FIGURA 6: DIAGRAMA DA DESCENDÊNCIA DE UMA MULHER ESTERILIZADA PELO ESTADO DE MAINE, EUA,
1935.(FONTE: TRUMAN STATE UNIVERSITY). CATEGORIAS COMO “INSANO”, “ALCOÓLATRA”,
“NEURÓTICO” E “PERVERTIDO SEXUAL” DEMONSTRAM A BIOLOGIZAÇÃO DE TRAÇOS DE PERSONALIDADE
QUE EMBASAVA AS ESTERILIZAÇÕES EFETUADAS PELO PODER PÚBLICO COM FINS EUGÊNICOS............. 131
FIGURA 7: EXPOSIÇÃO DE EUGENIA E SAÚDE DA SOCIEDADE EUGÊNICA AMERICANA, FEIRA ESTADUAL DO
KANSAS, EUA, 1929 (FONTE: AMERICAN PHILOSOPHICAL SOCIETY, FITTER FAMILIES COLLECTION).
EXPOSIÇÕES E FEIRAS COMO ESSA BUSCAVAM PROPAGAR PUBLICAMENTE IDEAIS DE SAÚDE PARA A
FAMÍLIA, PROMOVENDO CONCURSOS DE FAMÍLIAS E CRIANÇAS MAIS SAUDÁVEIS DE ACORDO COM OS
PARÂMETROS EUGÊNICOS...................................................................................................................... 132
FIGURA 8: GÊMEOS DURANTE UM EXAME ANTROPOMÉTRICO POR OTMAR FREIHERR VON VERSCHUER, S/D.
(FONTE: INSTITUTO KAISER WILHELM)................................................................................................. 137
FIGURA 9: STELARC ESCREVE EVOLUTION (EVOLUÇÃO) FAZENDO USO DE SUA TERCEIRA MÃO...................... 169
FIGURA 10: ALBA, O COELHO FLUORESCENTE DE EDUARDO KAC (FOTO DE CHRYSTELLE FONTAINE). .......... 175
FIGURA 11: EDUARDO KAC E ALBA (FOTO DE CHRYSTELLE FONTAINE)......................................................... 176
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Agradecimentos
À FAPESP, pelos quatro anos de apoio financeiro que viabilizaram a pesquisa.
Ao meu orientador, Laymert Garcia dos Santos, pelos anos de trabalho conjunto, pelo
aprendizado, pelos debates e pela paciência.
A todos os docentes e funcionários do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
UNICAMP, com os quais convivo intensamente desde 1993, por terem feito parte de um
pedaço tão importante da minha vida pessoal e profissional.
Aos colegas do Doutorado em Ciências Sociais, pelos debates e trocas que ajudaram a
moldar as idéias aqui contidas.
À Profa. Dra. Guita Grin Debert, por tantos anos de colaboração.
Ao Ricardo Vêncio, sem cuja ajuda e generosidade a pesquisa de campo teria sido muito
mais difícil do que foi.
Aos amigos, especialmente Érica Renata de Souza, Antonio Carlos Barbute, Paulo Roberto
Tremacoldi, Aguinaldo Von Zuben, Maria Claudia Bonadio e Márcio Angelim, por apoios
diversos, sem os quais eu não teria tido condições de finalizar a presente pesquisa.
Aos meus pais, pelo dom da vida, pelos apoios incansáveis e pelo amor incondicional.
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Introdução:
Este trabalho tem como objetivo debater a ciência e o corpo, explorando as novas
relações entre o saber científico e corporalidade. Busca-se compreender como as novas
práticas científicas associadas à biotecnologia alteram as formas de existência material do
corpo, num contexto onde a ciência oferece o sonho do acesso à "essência da vida". As
mudanças na ontologia material do corpo não ocorrem separadas de mudanças em nossas
"representações" desse mesmo corpo, e a compreensão da problemática relação entre esses
dois termos (materialidade e representação) não só é um dos temas centrais da discussão
teórico-metodológica da pesquisa, como também dá o tom da interpretação dos resultados
finais.
A figura que melhor encarna os problemas em foco nessa pesquisa é o ciborgue de
Donna Haraway. Parte ficção, parte mito político, tal sujeito intersticial vive os dilemas que
são aqui tratados e deles se aproveita para reinventar a política. A autora, ao escrever o seu
já clássico Manifesto Ciborgue, oferece saídas metodológicas e políticas para a
problemática do corpo e sua relação com a técnica que serão aqui exploradas. Ao
questionar a separação rígida entre o humano e o tecnológico, sugerindo que o nosso
contexto tecnocientífico abre novas possibilidades para a política e não o contrário (como
apregoam alguns teóricos do "pós-humano"), Haraway sugere um repensar da própria idéia
de representação, ponto também a ser desenvolvido ao longo dos capítulos que seguem.
A pesquisa de campo que compõe parte deste trabalho foi realizada em laboratórios
de bioinformática na cidade de São Paulo, nos quais dados gerados pelas iniciativas de
seqüenciamento (partes do chamado Projeto Genoma Humano) são interpretados e modelos
matemáticos para as funções biológicas são propostos. Tal tipo de pesquisa, parte de um
projeto teórico maior chamado Sociologia da Ciência (ou Antropologia da Ciência),
preocupa-se com a compreensão de como o conhecimento gerado em laboratórios é
construído, bem como com as suas conseqüências a partir de quando ele deixa o laboratório
e passa a integrar o arcabouço do imaginário social em seu contexto mais amplo. A prática
laboratorial é também objeto da discussão que segue, enquanto processo particular de
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construção da verdade a respeito da natureza que se consolida a partir da chamada
Revolução Científica.
O trabalho se orienta sob o pensamento de que as novas práticas científicas
associadas à biotecnologia alteram efetivamente as formas pelas quais vivenciamos ou
representamos o corpo e a vida. Ou ainda, seguindo a trilha aberta pelo pensamento de
Foucault, que uma epistêmé clássica parece estar sendo modificada, na medida em que
designava a ciência como prática privilegiada de compreensão do real a partir da
construção de arcabouços conceituais que corresponderiam a “fatos empíricos”. Atualmente
percebe-se, como esse trabalho argumenta, que os conceitos e suas relações com as
“realidades” que descrevem estão mudando radicalmente. Com a conquista da chamada
esfera molecular, associada à “essência” da vida regida pelo funcionamento da molécula do
DNA, abre-se a possibilidade de práticas laboratoriais alterarem a própria materialidade da
vida, possibilitando novas configurações da matéria, antes inexistentes, a partir dos avanços
alcançados pela ciência experimental.
Tal acesso único ao corpo sugere, cada vez mais claramente, a existência da
reflexividade enquanto característica que se impõe ao corpo material. A matéria viva, não
mais suporte material imutável de representações mentais, torna-se cada vez mais matéria
manipulável de acordo com as verdades estabelecidas em laboratório. A ciência não mais se
dedica a construir simulações cada vez mais perfeitas da natureza como, supõe Foucault,
faria a espistêmé clássica da modernidade. Em lugar dos autômatos da época de Descartes,
materializações de sua concepção mecanicista do mundo e da vida, as novas figuras
emblemáticas da ciência contemporânea são os organismos transgênicos e a ovelha Dolly,
clonada a partir de uma célula adulta. A ciência atual ocupa-se da construção de um novo
mundo, da materialização de potenciais antes inalcançáveis, e aí reside uma ruptura
fundamental com os paradigmas da modernidade. Compreender melhor o conteúdo dessa
ruptura é, portanto, o objetivo principal desse trabalho.
Tais paradigmas modernos, que marcam tanto a percepção mais geral a respeito do
corpo, quanto às metodologias de sua análise social, atribuem ao mesmo uma natureza de
fundo biológico, material, fixo, imutável. A matéria do corpo seria regida por leis que são
claras e redutíveis a princípios unificadores, decifráveis pela física ou pela biologia. Por
sobre esse corpo material, segundo tal visão, seriam construídas percepções mentais,
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subjetivas, de natureza ontológica distinta daquele corpo. Essa visão, fundada na divisão
cartesiana entre corpo/mente, perpassa não somente as análises sobre corpo mais comuns
nas ciências sociais (preocupadas com percepções subjetivas ou sócio-culturais a respeito
do objeto biológico corpo), mas pode ser percebida como um pilar fundamental de toda a
ciência moderna, desencadeada a partir do século 17. Descartes (1999), ao lado de Francis
Bacon (2000) e de Galileu Galilei (2001), pode ser considerado como fundador de um tipo
de pensamento que hoje chamamos de “científico”, surgido no século 17.
O ciborgue encerra em si, enquanto figura híbrida, as oposições que sustentam o
tipo de pensamento que ele se propõe superar. Ou seja, ele não é natural e nem tecnológico,
apontando para um futuro onde tais distinções não fazem mais sentido; mas, ao mesmo
tempo, ele é ambas as coisas. Em algumas de suas vertentes como, por exemplo, no
ciborgue literário de Mary Shelley (Frankestein), ocorre uma distorção do natural pelo
tecnológico: a imagem construída é a de uma figura monstruosa e limítrofe. Esse tipo de
visão, ainda bastante atual, sugere uma nostalgia da pureza da carne contra um contexto de
invasão das tecnologias sobre o corpo, simbolizando essa mistura como algo mostruoso e
fadado à tragédia.
O argumento a ser exposto estabelece que as rupturas operadas pelos novos
desenvolvimentos tecnológicos e sua relação com o corpo apontam para algo diverso desse
tipo de visão, aparentemente nostálgica da pureza do corpo. Esses deslocamentos podem
abrir caminhos para novas compreensões do mundo e da vida. O futuro pós-cartesiano ou
pós-humano que se esboça frente aos nossos olhos pode ser algo produtivo, positivo e
criativo, inspirando novas visões tanto da natureza e de seu funcionamento mais interno
(representado hoje em dia pelo DNA e pela genética), quanto da sociedade e de nossos
meios de pensá-la e vivê-la.
O corpo “existe” de uma determinada maneira a partir de Descartes e do
pensamento científico moderno; forma de existência que é, em certa medida, reformulada e
posta em cheque exatamente por esse mesmo pensamento científico quando este consegue,
via tecnologia, alterar as formas da matéria, especialmente a viva. A ciência não detém
somente o monopólio da verdade enquanto um conjunto de representações sobre o real
(construções conceituais que buscam uma aproximação com a natureza e seu
funcionamento; simulações), mas obtém crescentemente o direito exclusivo de criação de
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uma nova existência material para a natureza, quando desenvolve tecnologias que recriam
seres vivos a partir do acesso em nível molecular.
As novas formas de existência da vida sendo impostas pelo aparato da tecnociência,
até o presente momento, são subsumidas aos projetos capitalistas. Corpos vivos são, por
exemplo, transformados em fábricas (biorreatores) que obedecem ao imperativo da
produção em massa visando o lucro. Essa posição privilegiada de criação e determinação
do que é verdadeiro e do que é natural, que no século 19 deu origem às ciências
especializadas como a física, a biologia e mesmo a sociologia, hoje tem conseqüências
drásticas nas formas como nós existimos em relação aos nossos corpos. A nossa carne se
torna cada vez mais porosa ao ser penetrada por práticas tecnológicas que têm o potencial
de transformar a nossa própria natureza, tais como a engenharia genética, implantes,
vacinas, e melhoramentos genéticos de vários tipos.
Torna-se cada vez mais urgente, quando nos deparamos com alimentos
transgênicos, clonagem de seres humanos e terapias genéticas que prometem revolucionar a
medicina, debater e compreender as formas pelas quais a ciência se relaciona com o corpo,
e quais as consequências sociais das novas biotecnologias. Atualmente, grandes empresas
multinacionais detêm o monopólio, junto a alguns governos de países centrais, dos saberes
e das técnicas geradas por essa biotecnologia. Assim sendo, na lacuna de um
questionamento de proporcional amplitude gera-se espaço para o projeto único de
submissão dos potenciais da vida, em seus níveis mais essenciais à lógica empresarial. Um
debate ético a esse respeito é, portanto, imperativo e esse trabalho busca ser parte integrante
dessa empreitada.
O grande nódulo conceitual que envolve o surgimento da ciência moderna e de uma
visão cartesiana de corpo é deslocado a partir de uma crítica das bases dessa modernidade,
que tem início com Nietzsche (1992; 1998) e acentua-se ao longo do século XX. Tal crítica
nos interessa sobremaneira por ser inspiradora de muitos dos discursos a respeito do corpo
e da tecnologia que serão explorados a seguir. A crítica ao pensamento científico se
relaciona com uma crítica à visão cartesiana do corpo, sendo feita por setores tão distintos
como a sociologia do corpo e o feminismo. Este último em particular tem, em todas as
disciplinas em que atua, feito avanços notáveis no desenvolvimento de uma compreensão
complexa das articulações entre formas sociais de poder (como o machismo enquanto
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norma de organização das relações entre os sexos) e construções conceituais/científicas a
respeito do corpo biológico.
As feministas têm feito largo uso de Nietzsche e de outros filósofos por ele
influenciados, como Foucault e Derrida (1995), de forma especialmente produtiva, a fim de
construir um novo arcabouço conceitual que esclareça os desenvolvimentos
contemporâneos no que tange às relações entre corpo e tecnologia. A crítica ao humanismo,
ao sujeito cartesiano, entre outras tão comuns nas ciências sociais contemporâneas, podem
ser melhor contextualizadas e mobilizadas para uma compreensão do corpo em sua relação
com a tecnologia a partir do esclarecimento das complexas relações entre críticas
filosóficas, desenvolvimento da tecnologia e práticas sociais.
O primeiro capítulo apresenta a pesquisa de campo e fornece inspiração para o
debate feito no decorrer do trabalho. A partir da pesquisa empírica e bibliográfica com
biomarcadores de câncer, busca-se explicitar como a distinção que é sugerida aqui, entre o
corpo como máquina e o corpo como informação, está sendo configurada no interior de
laboratórios por meio de práticas científicas. Estas técnicas buscam mobilizar o corpo em
seu aspecto molecular para criar acessos antes inexistentes à materialidade desse corpo.
Nessa seção empírica vêem-se os embates em torno da construção da verdade sobre o corpo
e a forma, por vezes conflituosa, pela qual ela é gerada no interior das instituições
científicas. As questões levantadas nesse primeiro capítulo serão discutidas em maior
detalhe nos capítulos subseqüentes.
A lógica de acesso e controle da essência do corpo que se esboça não transparece de
forma pura nos experimentos aqui analisados. Há todo um esforço, em sintonia com o
projeto moderno, de construir modelos matemáticos que expliquem o funcionamento do
corpo de forma reducionista e objetiva. Mas, a forma pela qual esses modelos são obtidos e
suas possíveis consequências já sugere uma lógica diferente desta modernista, e que de
imediato já pode ser analisada. Tal análise, como está desenvolvida no texto adiante, sugere
que a tentativa de tradução do corpo para uma representação molecular, no caso específico
analisado como forma de melhorar o diagnóstico do câncer de próstata, contém em si
elementos claramente em ruptura com essa modernidade clássica. O microarray, objeto
central da pesquisa de campo, materializa em si os novos pressupostos com os quais os